O senador do Espírito Santo José Martins da Cruz Jobim, que era médico e fundador da Academia Imperial de Medicina, cobrou das autoridades do
Império respeito à
Ciência, a ampliação dos leitos hospitalares e a repressão ao charlatanismo como formas de combater a epidema da
febre amarela entre os anos de 1849 e 1850, segundo arquivos divulgados pelo
Senado.
O senador mineiro morreu duas semanas depois da doença que ele menosprezava. Quatro senadores morreram pela febre amarela em um período de dois meses em 1850, entre eles o senador José Thomaz de Araújo, que representava o
Espírito Santo. Somente no
Rio de Janeiro, mais de 4 mil pessoas morreram em período de um ano - entre 1849 e 1850.
Segundo reportagem da Agência Senado, foi por causa dessa grande epidemia que o Brasil mudou um antigo costume. Em 1850, uma lei proibiu as sepulturas dentro e ao redor das igrejas e exigiu que os novos cemitérios fossem abertos longe do centro das cidades. A preocupação era evitar a infecção dos fiéis e dos vizinhos das igrejas.
Os negacionistas, apesar de barulhentos, não conseguiram prevalecer. Diferentemente do
atual presidente da República, Jair Bolsonaro, desde a primeira epidemia, o governo brasileiro de então entendeu a gravidade da situação e ofereceu às populações atingidas os chamados socorros públicos, isto é, hospitais de isolamento, enfermarias, médicos, remédios e alimentos. O Senado e a Câmara sempre aprovaram a liberação das verbas necessárias. Em abril de 1850, por exemplo, o montante aprovado somou 100 contos de réis.
O próprio dom Pedro II manifestava publicamente preocupação com as epidemias. O imperador
visitou hospitais de isolamento, levando consolo aos doentes, e mencionou a febre amarela em diversas falas do trono, os discursos que ele proferia todo ano ao abrir e encerrar os trabalhos do Senado e da Câmara.
"Os estragos da enfermidade afligem profundamente meu coração. O meu governo tem empregado todos os meios ao seu alcance para acudir os enfermos necessitados", discursou dom Pedro II em maio de 1850. "Graças a Deus, vai diminuindo o mal. Espero de sua divina misericórdia que, ouvindo nossas preces, arrede para sempre do Brasil semelhante flagelo", completou. Que saudade de um líder como o imperador brasileiro...
Ainda segundo o Senado, assim como a febre amarela, foram com frequência citadas nas falas do trono a cólera e a varíola. As três moléstias representaram o grande gargalo sanitário do Império.
Todo fim de ano, dom Pedro II e a elite imperial se mudavam provisoriamente do Rio de Janeiro para Petrópolis, na região serrana fluminense, que se transformava numa espécie de capital de verão. No clima fresco das montanhas, ficavam a salvo das epidemias que brotavam na quentura úmida da Baía de Guanabara.