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Leonel Ximenes

Senador do ES combateu os negacionistas e pediu respeito à Ciência. Em 1850

José Martins da Cruz Jobim, que era médico e fundador da Academia Imperial de Medicina, enfrentou parlamentar que negava perigo da epidemia da febre amarela

Publicado em 13 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

13 jun 2020 às 05:00
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

Pintura de François-René Moreau mostra dom Pedro II visitando doentes de cólera em hospital no Rio de Janeiro
Pintura de François-René Moreau mostra dom Pedro II visitando doentes de cólera em hospital no Rio de Janeiro Crédito: Agência Senado/Reprodução
O senador do Espírito Santo José Martins da Cruz Jobim, que era médico e fundador da Academia Imperial de Medicina, cobrou das autoridades do Império respeito à Ciência, a ampliação dos leitos hospitalares e a repressão ao charlatanismo como formas de combater a epidema da febre amarela entre os anos de 1849 e 1850, segundo arquivos divulgados pelo Senado.
Ele confrontou o senador mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos, um negacionista que discursou afirmando que existia um alarmismo injustificado sobre a epidemia e sugeriu ainda que o governo parasse de gastar recursos públicos com médicos e construção de enfermarias.
O senador mineiro morreu duas semanas depois da doença que ele menosprezava. Quatro senadores morreram pela febre amarela em um período de dois meses em 1850, entre eles o senador José Thomaz de Araújo, que representava o Espírito Santo. Somente no Rio de Janeiro, mais de 4 mil pessoas morreram em período de um ano - entre 1849 e 1850.
Segundo reportagem da Agência Senado, foi por causa dessa grande epidemia que o Brasil mudou um antigo costume. Em 1850, uma lei proibiu as sepulturas dentro e ao redor das igrejas e exigiu que os novos cemitérios fossem abertos longe do centro das cidades. A preocupação era evitar a infecção dos fiéis e dos vizinhos das igrejas.
O senador do ES José Martins da Cruz Jobim, que era médico e fundador da Academia Imperial de Medicina
O senador do ES José Martins da Cruz Jobim, que era médico e fundador da Academia Imperial de Medicina Crédito: Reprodução
Os negacionistas, apesar de barulhentos, não conseguiram prevalecer. Diferentemente do atual presidente da República, Jair Bolsonaro, desde a primeira epidemia, o governo brasileiro de então entendeu a gravidade da situação e ofereceu às populações atingidas os chamados socorros públicos, isto é, hospitais de isolamento, enfermarias, médicos, remédios e alimentos. O Senado e a Câmara sempre aprovaram a liberação das verbas necessárias. Em abril de 1850, por exemplo, o montante aprovado somou 100 contos de réis.

IMPERADOR SE PREOCUPAVA COM A PANDEMIA

O próprio dom Pedro II manifestava publicamente preocupação com as epidemias. O imperador visitou hospitais de isolamento, levando consolo aos doentes, e mencionou a febre amarela em diversas falas do trono, os discursos que ele proferia todo ano ao abrir e encerrar os trabalhos do Senado e da Câmara. 
"Os estragos da enfermidade afligem profundamente meu coração. O meu governo tem empregado todos os meios ao seu alcance para acudir os enfermos necessitados", discursou dom Pedro II em maio de 1850. "Graças a Deus, vai diminuindo o mal. Espero de sua divina misericórdia que, ouvindo nossas preces, arrede para sempre do Brasil semelhante flagelo", completou. Que saudade de um líder como o imperador brasileiro...
Ainda segundo o Senado, assim como a febre amarela, foram com frequência citadas nas falas do trono a cólera e a varíola. As três moléstias representaram o grande gargalo sanitário do Império.
Todo fim de ano, dom Pedro II e a elite imperial se mudavam provisoriamente do Rio de Janeiro para Petrópolis, na região serrana fluminense, que se transformava numa espécie de capital de verão. No clima fresco das montanhas, ficavam a salvo das epidemias que brotavam na quentura úmida da Baía de Guanabara.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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