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Memória

Sérgio Rogério de Castro: um exemplo de liderança empresarial

Alguns traços da personalidade do meu pai me serviram como inspiração a vida inteira, e penso que poderiam também inspirar outros empreendedores do Espírito Santo

Publicado em 26 de Novembro de 2023 às 02:00

Públicado em 

26 nov 2023 às 02:00
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro

Não foi nada fácil para mim definir a abordagem deste texto, não somente por razões afetivas, mas também pela abrangência do legado do meu pai, Sérgio Rogério de Castro, para todos nós que convivíamos com ele e creio que para o Espírito Santo em geral. Primeiramente, gostaria de agradecer todos os depoimentos registrados nas redes e em entrevistas e artigos na imprensa, sobre o seu falecimento, dia 31 de outubro, reconhecendo a sua importância para o mundo empresarial e político do Estado que ele escolheu para viver.
Meu pai nasceu em Muriaé, Minas Gerais: era o filho do meio de uma família de cinco filhos, sendo a mãe professora e o pai, advogado. Ninguém na família era empreendedor.
Aos 12 ou 13 anos ele se mudou para o Rio de Janeiro, para estudar no tradicional colégio Pedro II, e depois fez Engenharia Mecânica. Ao se formar, voltou para Muriaé, para se casar com a minha mãe, com quem já namorava, e em 1972 ele veio para o Espírito Santo para fundar a Fibrasa, hoje uma das maiores empresas de embalagens plásticas de polipropileno no país – mas o início não foi fácil.
Sérgio Rogério de Castro assumiu o mandato no Senado durante quatro meses
Sérgio Rogério de Castro assumiu o mandato no Senado durante quatro meses Crédito: Ales
Sérgio Rogério de Castro veio para cá atraído pelo extinto Funres, o Fundo de Recuperação Econômica do Espírito Santo, um dos importantes incentivos de desenvolvimento regional do Estado, que transformaram a sua economia a partir dos anos 70.
A Fibrasa foi a primeira indústria a se instalar no Civit, na Serra, quando o município tinha somente 20 mil habitantes. O Centro Industrial Metropolitano de Vitória – Civit, apesar de ser um polo industrial, tinha infraestrutura precária em telefonia e energia, num tempo em que não havia a tecnologia de hoje. Sérgio Rogério era chamado na época de “o louco do Civit”, porque ninguém acreditava muito que aquilo daria certo.
Atualmente a Serra é o município mais populoso do Estado, com mais de 520 mil habitantes; é o segundo município mais rico, perdendo apenas para a Capital; e o Civit abriga mais de 200 empresas.
Alguns traços da personalidade do meu pai me serviram como inspiração a vida inteira, e penso que poderiam também inspirar outros empreendedores do Espírito Santo: a sua visão de futuro, a intensa dedicação ao trabalho, a incessante busca pelo conhecimento em viagens e leituras, a paixão pelas artes, do samba ao erudito, passando pela ópera e pelo carnaval de Salvador, a determinação de assumir opiniões próprias com independência em relação aos governos ou à voz da maioria, a preocupação com a qualidade no processo de produção, incluindo a opção pelos melhores e mais modernos equipamentos, o acompanhamento constante da evolução tecnológica, sempre conectado com as grandes transformações, e o notório senso de coletividade e o trabalho pelo associativismo no Estado.
O associativismo, sua grande ocupação especialmente nos últimos anos, nada mais é do que um modelo de colaboração entre empresas, pessoas ou organizações que têm interesses em comum, para defender uma causa comum.
No seu caso, o espírito de colaboração e empreendedorismo se manifestou bem cedo. Logo após a sua formatura em Engenharia, em meados dos anos 60, Sérgio Rogério liderou um grupo de colegas recém-formados para mobilizar recursos junto a empresários e fazer uma viagem de seis meses à Europa, para acompanhar as tendências no processo produtivo em visitas técnicas a indústrias locais. Isso num tempo em que a TV engatinhava e o grande veículo de comunicação ainda era o rádio. A viagem foi feita de navio.
A Fibrasa foi fundada em 1972 e em 1977 ele fundou a Ases, Associação dos Empresários da Serra, para compartilhar dores e buscar soluções conjuntas que beneficiassem todo o ecossistema.
Em 1989 ele se elegeu presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo – Findes, organização que comandou por um mandato, até 1992, porque também ele acreditava na importância da alternância no poder, para evitar que as instituições sejam capturadas por projetos pessoais.
Em 2015, ele ajudou a criar a Escola de Associativismo, uma organização sem fins lucrativos que promove cursos e palestras, disponibilizando informações para todo tipo de organização, de sindicatos a associações de moradores.
No ano 2000, ele voltou a disputar a Presidência da Findes, e aqui eu gostaria de mencionar o artigo do professor João Gualberto Vasconcellos, publicado em seu blog dias atrás, em que ele narra a participação do meu pai na fundação do movimento empresarial ES em Ação.
Disse o professor: “Foi a sua militância e importância política como gestor inovador que o fez disputar a eleição do ano 2000 na Findes. Um ato de coragem. Foi massacrado pela máquina política que comandava o Espírito Santo, à época. Mas suas ideias e lutas não morreram com a derrota. Ele nos procurou para trabalhar a ideia de que as elites empresariais precisavam construir um outro locus para a sua ação”.
Surgia assim o ES em Ação, que, como disse o professor, “teve forte papel na reconstrução ética do nosso Estado”.
Sérgio Rogério acreditava na política como instrumento de transformação da sociedade e, tanto na política como nos negócios, ele valorizava o debate e a divergência, porque sabia que a troca de ideias enriquecia o processo de decisão – e ele acreditava que quem devia brigar eram as ideias, não os homens.
Penso que ele encarnava a figura do industrial empreendedor e visionário, com opiniões fortes, sempre se posicionando de maneira firme, mas respeitosa, sem se preocupar em agradar ninguém, convicto de que a divergência cordial contribuía para empurrar para a frente a vida empresarial e política.
Movido pelos seus ideais, ele foi senador suplente do Ricardo Ferraço, tendo assumido o mandato por 6 meses, mas mesmo na suplência ele se sentia responsável pela atuação parlamentar e dedicava horas, com orgulho, a essa atividade, contribuindo com sugestões e análises.
No Pedra Azul Summit, grande encontro de lideranças empresariais promovido pela Rede Gazeta, no fim de outubro, conversei com o professor João Gualberto sobre uma entrevista que meu pai daria ao ES em Ação, para documentar o seu depoimento. Meu pai estava lúcido e disposto a falar. Combinamos que João deveria participar. Não deu tempo: meu pai se foi no dia 31, o dia marcado para a gravação.
Agradeço muito ao João e a todos que ajudaram a contar a sua história, na cobertura jornalística de sua passagem para outro plano. Ficam os seus ensinamentos, que guardarei para sempre na memória e que, espero, poderão servir de inspiração para as atuais e futuras gerações de lideranças do Espírito Santo.

Léo de Castro

Empresario, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaco, aborda economia, inovacao, infraestrutura e ambiente de negocios.

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