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Artes

Reabertura do Carlos Gomes: precisamos valorizar a cultura como um ativo

Sem investimento na formação cultural, estaríamos formando somente profissionais, mas não cidadãos no sentido pleno. A longo prazo, isso impacta diretamente a capacidade de inovação e a qualidade da democracia de um país

Publicado em 23 de Novembro de 2025 às 03:15

Públicado em 

23 nov 2025 às 03:15
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro Léo de Castro

A reabertura do Theatro Carlos Gomes, neste fim de semana, após um longo período de reforma, representa a entrega de um símbolo da cultura capixaba: trata-se de um grande patrimônio histórico revitalizado.

A obra nos relembra a importância das artes na formação da nossa sociedade e também o papel das elites, no fomento à cultura, como importante ativo estratégico. Afinal, não há desenvolvimento econômico sem desenvolvimento cultural, e os países mais prósperos comprovam isso.

Inaugurado pela primeira vez em 1927 e inspirado no Teatro Scala, de Milão, o Carlos Gomes já abrigou grandes nomes da cena brasileira como Bibi Ferreira, Paulo Autran e Fernanda Montenegro. A restauração foi um investimento de R$ 20 milhões, resultado de uma parceria entre o Instituto Modus Vivendi, o governo do Estado, o BNDES e a EDP, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

O estímulo à produção cultural deve ser abraçado por nossas elites econômicas, como ocorre em países da Europa e nos Estados Unidos, como parte de uma estratégia de desenvolvimento nacional que envolve educação, coesão social, projeção internacional e fortalecimento da nossa identidade como nação.

A cultura, o teatro, a dança e a música não são apenas lazer e entretenimento: são de fato a base da nossa formação. Essas expressões artísticas contribuem para estimular o pensamento crítico, a criatividade e a sensibilidade. Elas desenvolvem na sociedade habilidades cognitivas e emocionais, em qualquer tempo, educando para a empatia, a tolerância e a diversidade, que são valores fundamentais para a convivência social.

Sem investimento na formação cultural, estaríamos formando somente profissionais, mas não cidadãos no sentido pleno. A longo prazo, isso impacta diretamente a capacidade de inovação e a qualidade da democracia de um país. A arte é fundamental para nos conectar com o passado e com nossas tradições, contribuindo para compreender o momento presente e nos inspirar para o futuro.

Países que valorizam suas expressões culturais normalmente têm identidade forte, orgulho nacional e maior resistência a crises. Em países como França, Alemanha, EUA e Reino Unido, os empresários participam ativamente de conselhos e consórcios culturais.

Teatro Carlos Gomes no Centro de Vitória
Teatro Carlos Gomes no Centro de Vitória Crédito: Vitor Jubini

Nos Estados Unidos, nomes de grandes fortunas como Rockefeller, Ford, Guggenheim e Bloomberg entenderam que fortalecer museus e universidades era preparar o país para a liderança mundial.

Na Europa, marcas de luxo patrocinam óperas e teatros porque avaliam que o prestígio está associado mais à cultura, não exatamente ao consumo. Grifes como Chanel, LVMH (Louis Vuitton Moët Hennessy), Dior e Rolex com frequência patrocinam óperas e teatros renomados porque o posicionamento de marketing está mais ligado ao prestígio cultural e à exclusividade.

Em artigo publicado na imprensa tempos atrás, o publicitário Nizan Guanaes abordou esse padrão de certa elite internacional: “A vida social em Nova York e Londres se passa dentro de universidades e museus, misturando caridade, diversão e cultura. Sem cultura e sem refinamento intelectual, seremos sempre sinhozinhos e sinhazinhas caipiras, mesmo que a gente compre todas as roupas, relógios, fivelas e todos os aviões e carros do mundo”, disse Nizan.

Cidades com forte circuito cultural atraem talentos, turistas e investimentos, como vemos em Barcelona, Berlim e Nova York. No Brasil, podemos citar Rio, São Paulo, Recife e Salvador como grandes centros culturais, e Vitória tem tudo para integrar o circuito nacional e internacional da cultura, notadamente com o Cais das Artes, além do Carlos Gomes.

Para além da elevação do padrão cultural e intelectual da sociedade, o investimento no setor é também uma questão econômica. O Banco Mundial reconhece a economia criativa como um dos setores que crescem na economia global, gerando um alto impacto em inovação, renda e empregos, representando cerca de 3,1% do PIB do mundo.

No Brasil, o setor representa um pouco mais, ou 3,59% do PIB nacional, empregando atualmente cerca de 7,5 milhões de pessoas, com tendência de alta.

Como disse Nizan, os brasileiros melhores que nós formamos hoje são a maior contribuição que podemos dar ao futuro do país. Afinal, o verdadeiro legado empresarial não está apenas nas fábricas e nos números, mas nas ideias e valores que deixamos para a sociedade.

Quando as elites econômicas assumem o compromisso de apoiar a arte, estão formando as próximas gerações, desenvolvendo cidades mais criativas, sociedades mais coesas e um país capaz de competir não apenas em mercado, mas em inteligência, sensibilidade e visão.

Léo de Castro

Léo de Castro Léo de Castro

Empresário, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaço, aborda economia, inovação, infraestrutura e ambiente de negócios

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