Sair
Assine
Entrar

Economia

Política industrial: uma escolha para o Brasil

A política industrial precisa estar alinhada com a política fiscal, monetária e regulatória. O Brasil precisa urgentemente avançar em direção ao equilíbrio macroeconômico, com estabilidade do câmbio, controle da inflação e redução dos juros

Publicado em 25 de Maio de 2025 às 04:00

Públicado em 

25 mai 2025 às 04:00
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro

Neste domingo, 25 de maio, comemoramos no Brasil o Dia da Indústria, a data motiva debates importantes sobre o tema em diversas partes, e penso que a pergunta que devemos fazer é a seguinte: o país quer mesmo uma política industrial? O que desejamos enquanto nação?
O questionamento é válido porque temos visto na nossa política sinais contraditórios que precisam ser sanados. O que está em jogo é o nosso futuro, num tempo de grandes desafios.
Nas últimas décadas, o Brasil virou as costas para a indústria e não desenvolveu politicas estruturantes que pudessem fazer dela um catalisador do crescimento de renda e bem-estar da sociedade. Enquanto isso, China, Coreia do Sul, Alemanha, EUA, Canadá e outros países investiram fortemente na indústria local, com apoio à inovação, indução da produtividade, estímulo a compras locais, subsidio de setores e também, para o arrepio dos ultraliberais (que não enxergam o que de fato os EUA praticam na indústria), proteção de mercados.
Para piorar, ainda oneramos as indústrias que insistiram em operar no Brasil. Para ficar em um só exemplo, inventamos o IPI – Imposto sobre Produto Industrializado. Uma bola de ferro para a indústria arrastar na competição com seus pares globais. Um absurdo!
Temos ainda uma burocracia pesada, um ambiente de insegurança jurídica, tolerância ou proteção a interesses corporativos que se perpetuam até hoje, gerando o chamado Custo Brasil, que faz com que produzir aqui tenho uma desvantagem competitiva de 17% em relação a produzir o mesmo produto nos países da OCDE.
O Custo Brasil responde em grande parte à pergunta de todos nós: por que compro um iPhone mais barato nos EUA do que aqui? Ou uma geladeira ou qualquer outro bem?
Porém, podemos mudar esse quadro. Iniciamos um movimento a partir de janeiro de 2024, com o lançamento da NIB – Nova Indústria Brasil, visando enfrentar desafios e impulsionar o setor industrial, através de seis missões específicas, cada uma com metas e prioridades, para melhorar a qualidade de vida da população, impulsionando o desenvolvimento tecnológico e a inovação.
No entanto, é preciso ficar claro que essa intenção não pode ter morada em somente um ministério ou no BNDES. A atuação destes é fundamental, mas uma andorinha não faz verão. Ou a reindustrialização é uma escolha de país, ou vamos viver em um barco em que de um lado alguém tampa um buraco no casco e do outro, alguém faz outro buraco.
A indústria não é apenas um conjunto de máquinas e linhas de produção: ela é o coração da inovação, o motor da produtividade puxando também os demais setores, o maior vetor de geração de empregos qualificados e com melhores salários e é o setor mais estratégico para o crescimento sustentável e a inclusão social. É isso que mostra a história e o exemplo de outras nações.
Os países que mais avançaram no campo social e econômico ao longo da história foram justamente os que fizeram da política industrial uma estratégia nacional e coordenada. China, Alemanha e Estados Unidos seguem investindo trilhões de dólares em ciência, tecnologia e modernização da base produtiva, fortalecendo suas cadeias industriais. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de adiar esse alinhamento com o mundo.
Foi positivo sem dúvida o relançamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a reestruturação do papel do BNDES, a reativação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI) e programas como o Brasil Mais Produtivo e o Plano Mais Produção, que é o Plano Safra da Indústria. São iniciativas que indicam uma virada de chave importante na política nacional.
O NIB representa um avanço e um reconhecimento de que o país precisa realmente de um setor industrial forte, para superar a armadilha da renda média e dar um salto de desenvolvimento. Os resultados já começam a aparecer.
No ano passado, o PIB cresceu 3,4%, impulsionado pelos setores industriais de transformação e construção, que registraram altas de 3,8% e 4,3%, respectivamente. O investimento atingiu o maior nível em uma década, liderado pelo setor privado.
Porém, precisamos de coerência e visão estratégica neste momento. O esforço de reindustrialização não pode ser comprometido por medidas que caminham na direção contrária. A recente elevação do IOF sobre o financiamento externo, por exemplo, encarece o investimento produtivo – justamente o que queremos fomentar.
carro, indústria, produção
Indústria automobilística Crédito: Agência Brasil/Arquivo
Da mesma forma, a Medida Provisória de reforma do setor elétrico traz uma contradição. Ela estabelece a gratuidade ou descontos nas contas de luz para 60 milhões de consumidores. Parece socialmente justa, mas ao mesmo tempo ela aumenta em cerca de 20% o custo da energia para a indústria, encarecendo os produtos que serão consumidos pelas mesmas pessoas supostamente beneficiadas pela MP. Não faz sentido.
A política industrial precisa estar alinhada com a política fiscal, monetária e regulatória. O Brasil precisa urgentemente avançar em direção ao equilíbrio macroeconômico, com estabilidade do câmbio, controle da inflação e redução dos juros. Impossível prosperar em uma política industrial com um juro real de 8 a 9% a.a. E isso deve caminhar junto da redução do Custo Brasil e da previsibilidade regulatória, essencial para atrair investimentos de longo prazo.
Importante destacar que o equilíbrio fiscal não é incompatível com justiça social, e o Espírito Santo é um exemplo concreto disso. O Estado há mais de dez anos é referência nacional em equilíbrio fiscal e ao mesmo tempo exibe bons indicadores sociais, com redução de homicídios e alto desempenho no Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica.
É absolutamente compatível, portanto, equilibrar as contas públicas e promover justiça social. Aliás, não há política social que se sustente a longo prazo sem estabilidade macroeconômica.
Promover uma política industrial, portanto, exige visão de longo prazo. O Brasil precisa construir uma política de Estado que seja perene, estando acima das disputas eleitorais e das mudanças de governo, enraizada na sociedade como um projeto de nação para as próximas décadas.
Penso que é hora de fazer da política industrial uma escolha estratégica para o futuro do Brasil, como fizeram os países que hoje lideram a economia mundial. Precisamos de consistência entre o discurso e a prática, com ações convergentes em todos os níveis de governo. Sem isso, corremos o risco de desperdiçar mais uma oportunidade e voltarmos ao já conhecido voo de galinha. Certamente não é isso que desejamos.

Léo de Castro

Empresario, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaco, aborda economia, inovacao, infraestrutura e ambiente de negocios.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Vacina britânica contra Ebola pode ficar pronta para testes em meses
A unidade da Artenza em Vila Velha opera em um imóvel de cerca de 2.600 metros quadrados de área de exposição, distribuídos em três andares
Móveis Conquista de Vila Velha muda de nome e vira Artenza
Velocidade na Terra
Copa ASAA celebra terceiro aniversário da Associação Automobilística de Aracruz

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados