Tenho registrado neste espaço a relevância da indústria para uma sociedade desenvolvida. A indústria é o setor que paga os melhores salários, responde por cerca de 70% dos investimentos em pesquisa, inovação e tecnologia, estimulando, como demandante, toda a cadeia produtiva, com reflexos positivos no comércio e nos serviços.
Na pandemia, ficou evidente também a diferença competitiva dos países com capacidade de produção de seus bens dentro de suas próprias fronteiras. Considerando esse cenário, gostaria de destacar hoje a importância de o Brasil se tornar o supermercado do mundo, e não somente o celeiro do mundo, como há décadas nos habituamos a ouvir.
De fato, estudo da Embrapa publicado em março concluiu que o Brasil responde por cerca de 10% da produção mundial de trigo, soja, milho, cevada, arroz e carne bovina. O estudo sustenta que, atualmente, alimentamos 10% da população mundial, ou 800 milhões de pessoas, incluindo a nossa população.
Sem dúvida é um grande avanço, especialmente se considerarmos que há 50 anos o país era um importador de alimentos. A questão que devemos abordar, porém, é a seguinte: qual é a nossa ambição? Estamos satisfeitos em ser a fazenda do mundo? Vamos exportar o café em grãos e importar cápsulas? Vamos exportar a carne in natura e importar hambúrgueres?
Temos uma grande oportunidade de evoluir de celeiro do mundo para o supermercado do mundo! De exportador de commodities podemos exportar o produto final, consumido nos supermercados de cada país.
Se somos tão competitivos no agronegócio, por que não conseguimos ser igualmente competitivos na indústria, que poderia beneficiar essa produção aqui? Esse é o debate que temos de travar.
Outra pesquisa recente, da KPMG, constatou que o Brasil é o país mais caro para as empresas de produção industrial fazerem negócios, entre 17 mercados pesquisados no mundo. O menor custo é o do Canadá, seguido de Taiwan, Coreia do Sul, Malásia, EUA e Reino Unido.
Voltamos, assim, a outro tema que costumo abordar: o Custo Brasil, que mina a nossa competitividade. Esse custo já foi devidamente quantificado em estudo produzido pelo próprio governo federal, em parceria com o Movimento Brasil Competitivo.
O levantamento mostrou que o custo de produção no Brasil equivale a R$ 1,5 trilhão por ano, ou 22% do PIB. Esse é o valor que as empresas nacionais gastam a mais para produzir aqui, em relação ao custo de produção dos países da OCDE.
O estudo levou em conta 12 fatores críticos, eles as deficiências de infraestrutura, a insegurança jurídica, o excesso de burocracia e um sistema tributário que é um verdadeiro manicômio.
Precisamos resolver esse manicômio tributário que possui uma tributação concentrada na indústria, tributa o investimento e também leva a exportarmos imposto: um absurdo.
Na infraestrutura, o país parece estar engatando uma 2ª marcha, sob o comando do ministro Tarcísio, o que nos dá uma esperança.
Na produtividade, o tema passa pela educação, em especial a formação técnica, que deverá ser implantada com a reforma do ensino médio. Essa reforma entra em vigor obrigatoriamente no ano que vem, no 1º ano do ensino médio, atingindo todos os anos até 2024.
Além de reformas estruturais para reduzir o Custo Brasil, precisamos voltar a ter uma política industrial, como fazem todos os países desenvolvidos. Eles tratam esse assunto à luz do dia, mas aqui o tema parece execrado pela equipe econômica.
Sem uma política industrial estratégica, nosso sonho de nos tornar o supermercado do mundo também restará adiado por longos anos. A indústria de alimentos, assim como todas as outras, precisa de uma política para impulsionar a sua competitividade, com ações pragmáticas contemplando câmbio, juros, incentivo à inovação e ao desenvolvimento tecnológico, utilizando de forma estratégica as compras governamentais, com estímulos à indústria 4.0 e financiamento para exportações. É isso que fazem as nações desenvolvidas.
A oportunidade está diante de nós. Se tratarmos com profundidade e determinação o enfrentamento do Custo Brasil e formularmos uma política industrial moderna, estimularemos no país a criação de empregos, com ampliação da arrecadação de impostos, desenvolvimento tecnológico e inovação.
No Espírito Santo, um movimento importante ganha corpo em Linhares, onde dois grandes players da indústria do café estão fazendo investimentos bilionários, justamente para agregar valor ao grão produzido em solo capixaba e industrializá-lo também aqui. Um ótimo exemplo a ser seguido em outras cadeias produtivas.
Certamente é bom ser o celeiro do mundo, mas é muito melhor ser o supermercado do mundo! E temos tudo para chegar lá!