Publicado em 12 de janeiro de 2021 às 15:14
- Atualizado há 5 anos
O Ministério da Economia montou um grupo de trabalho para avaliar o fechamento das fábricas da Ford no país e está entrando em contato com outras montadoras sobre a possibilidade de elas assumirem as unidades da marca. >
Já foram acionados pelo governo federal presidentes e outros executivos de três fabricantes mundiais para buscar um destino para as fábricas de Camaçari (BA), Taubaté (SP) e da Troller em Horizonte (CE).>
Segundo membros do governo ouvidos pela reportagem, é possível que uma fabricante chinesa assuma ao menos uma das unidades. Apesar de os nomes serem mantidos em sigilo, é mencionado em conversas como uma possível candidata a Chery.>
A marca chinesa já tem no Brasil uma operação em parceria com a brasileira Caoa, mas a avaliação é que sua produção atualmente ainda é pequena no país. Ela não está sequer entre as cinco marcas com mais veículos vendidos em território nacional, e a visão entre integrantes do governo é que ela poderia ganhar força com uma expansão a ponto de incomodar os concorrentes.>
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A tendência é que o governo continue entrando em contato com empresas para obter um número relevante de interessados, uma medida que também foi colocada em prática pelos governos de São Paulo e Bahia. Mas a equipe econômica ressalta que a decisão de entrar nas fábricas é uma decisão das companhias e que dependerá da estratégia de cada interessado.>
Membros do Ministério da Economia defendem que a decisão da Ford de sair do país não é uma notícia boa, mas que deve ser entendida mais como um reposicionamento da marca no atual cenário global do que exatamente na operação do Brasil.>
Integrantes do time reconhecem nos bastidores que este é o segundo caso similar em menos de um mês. A Mercedes-Benz anunciou o fechamento de sua única fábrica brasileira de veículos leves, em Iracemápolis (SP), no fim do ano passado.>
Em ambos os casos, integrantes do Ministério ressaltam que os movimentos são estratégias particulares de cada empresa para enxugamento de custos e foco em produtos mais rentáveis.>
Múltiplos fatores são citados, como o reposicionamento global das marcas, as mudanças trazidas pela tendência dos carros elétricos, a competição estimulada pelos fabricantes asiáticos e o impacto nas vendas provocada pela Covid-19.>
Mas o elemento mais importante mencionado é o custo Brasil, que estimula as empresas a buscarem alternativas de negócio mais rentáveis. Entidades como Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), CNI (Confederação Nacional da Indústria) e Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) corroboram essa visão.>
Os membros da equipe econômica trabalham com uma lista de fatores que impulsionam o custo Brasil. O principal deles é o capital humano, que seria pouco capacitado e exige qualificações pagas pelas empresas. A lista segue com sistema tributário, infraestrutura e insegurança jurídica.>
O presidente da Ford América do Sul, Lyle Watters, havia dito em comunicado em dezembro que os desafios enfrentados pelo setor automotivo incluíam, além da redução significativa dos níveis de vendas e produção, a desvalorização do real. Segundo ele, isso aumenta os custos de se atuar no Brasil.>
Segundo Watters, a expectativa era que a atividade econômica na América do Sul se recuperasse gradualmente em 2021, mas com o retorno de produção e vendas vistas em 2019 somente em 2023.>
A equipe econômica afirma que subsídios não faltaram ao setor, após decisões tomadas em diferentes governos. Os incentivos tributários ao setor automotivo serão de R$ 5,9 bilhões de 2021, segundo cálculos da Receita Federal que embasaram a proposta de Orçamento para este ano.>
Exemplo disso foi o Rota 2030, programa de incentivos à indústria automotiva criado em 2018 que tinha como justificativa ampliar a inserção global da indústria automotiva brasileira através da exportação de veículos e autopeças. A medida tinha custo fiscal projetado de R$ 3,7 bilhões na soma de 2019 e 2020.>
Gustavo Ene, secretário do Desenvolvimento, Indústria, Comércio, Serviços e Inovação do Ministério da Economia, diz que o Rota 2030 acabou compensando os custos da indústria e atraiu investimentos no Brasil, principalmente voltados a veículos mais modernos. "É muito mais caro fazer carro no Brasil, o que mostra como o nosso ambiente de negócios é sufocado", afirma.>
Apesar disso, ele afirma que subsídios como esse, criado em governos anteriores, deveriam ter sido acompanhados de outras mudanças para melhorar o ambiente de negócios. "Eles foram feitos para compensar o custo Brasil, mas os governos passados não avançaram em reavaliar as causas que levaram a esses incentivos", disse.>
Ele diz que o governo atual tem como meta a redução dos custos das empresas, mas diz ser fundamental também a atuação do Congresso para aprovação de medidas como novas leis para os mercados do gás, das ferrovias, da cabotagem e a reforma tributária.>
Carlos da Costa, secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, afirmou que o atual governo assumiu com uma indústria em frangalhos, apesar de bilhões gastos anteriormente, e que o Executivo tem atuado para reduzir o custo Brasil. Segundo ele, no entanto, a pandemia impediu que as ações surtissem efeito a tempo.>
"É hora de unirmos forças para avançar ainda mais rápido na redução do custo Brasil e recuperar nossa indústria, que perdeu espaço no PIB em todos os governos anteriores", afirmou Costa em rede social.>
Em nota, o Ministério da Economia lamentou a decisão global da Ford de encerrar a produção no Brasil e disse que o movimento destoa da "forte recuperação observada na maioria dos setores da indústria no país, muitos já registrando resultados superiores ao período pré-crise".>
"O ministério trabalha intensamente na redução do custo Brasil com iniciativas que já promoveram avanços importantes. Isto reforça a necessidade de rápida implementação das medidas de melhoria do ambiente de negócios e de avançar nas reformas estruturais", afirma a pasta.>
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