Um dos maiores químicos do mundo, Omar Yaghi está deixando os Estados Unidos da América. Nascido em Amã, na Jordânia, filho de refugiados palestinos. Consta que foi criado em uma família numerosa com nove irmãos, em uma casa com um só cômodo, que não tinha eletricidade nem água encanada.
Aos 15 anos, migrou para os Estados Unidos, na década de 1980, estimulado pelo pai. Era uma outra América, receptiva então aos imigrantes... Hoje, um palestino seria barrado no aeroporto ou deportado pelo ICE (Serviço de Imigração).
Nos EUA, Omar Yaghi desenvolveu uma carreira brilhante, que foi coroada com o Prêmio Nobel de Química, em 2025, por suas pesquisas em estruturas metalorgânicas (do inglês MOF).
O cientista está deixando seu posto de pesquisador sênior em Berkeley, na Universidade da Califórnia, e vai trabalhar na Tsinghua University em Beijing, China, onde irá se dedicar em tempo integral a pesquisas com inteligência artificial.
O cientista tinha declarado, em recente entrevista à Scientific American, que o estado atual da ciência nos Estados Unidos estava deixando de ser atraente em razão dos seguidos cortes efetuados pelo governo nos financiamentos de pesquisa das Universidades.
Yaghi já tinha uma conexão com a Universidade chinesa, quando foi nomeado professor honorário em 2022. Agora em julho vai se mudar para Beijing, tornando-se professor daquela instituição em tempo integral.
A China está tentando ser atraente para pesquisadores internacionais, buscando se contrapor às políticas norte-americanas. De acordo com a OCDE, o orçamento total em pesquisa já ultrapassou o dos EUA em 2024, em cerca de 200 bilhões de dólares.
Na verdade, não é o primeiro cientista de Berkeley a sair dos EUA. Dan Yang, um neurocientista da mesma universidade, que trabalhava nos EUA há décadas, também se tornou investigador sênior da Shenzhen Medical Academy of Research and Translation (SMART).
Outro pesquisador, famoso pelos seus estudos em câncer de fígado, Feng Gensheng deixou a Universidade California em San Diego para trabalhar como diretor do Instituto de pesquisa em câncer em Shenzhen Bay Laboratory na China, após 40 anos nos EUA.
A cientista Katalin Karikó, Nobel de Medicina em 2023, fez interessantes declarações na sala de imprensa na 75ª reunião dos Prêmios Nobel em Lindau na Alemanha, nesta semana. Ela disse que “o ambiente científico foi muito bom nos EUA no passado, atualmente não é mais”. Refletiu que “isso significa que a ciência vai florescer em outro lugar” (Folha São Paulo, 13/07, pg 50).
Disse ainda Karikó: “Eu gostaria que mais dinheiro fosse direcionado à ciência e não para exércitos ao redor do mundo. Mas as coisas mudaram e quem sou eu? Ganhei o Nobel por saber uma coisinha, não por saber muitas coisas”.
Tempos estranhos esses atuais. Cientistas sem espaço para trabalhar na América, tradicional terra das oportunidades e líder até então inconteste nos avanços da ciência.