Acompanhei de perto os anos nos quais Cariê Lindenberg abriu os caminhos que levaram à profissionalização da gestão da Rede Gazeta. Vivíamos o final da década de 1960, ocasião em que Cariê assumiu a direção da empresa e, ao lado do seu tio Eugênio Queiroz, viabilizou a construção do Edifício A Gazeta, na rua General Osório, no Centro de Vitória, e a aquisição de uma moderna impressora off-set Goss Comunity, capaz de imprimir 16 mil exemplares por hora.
O jornal passou a ocupar o térreo e o primeiro pavimento do edifício, ficando reservado o 13º pavimento para a instalação de uma emissora de rádio. A gestão se profissionalizou com a reestruturação da redação e das gerências comercial e industrial, e a criação da área de planejamento e controle.
Cariê assim definiu esse movimento: “Foi aí que vimos o que estava sendo feito no Jornal do Brasil e em outros jornais. Foram criados o orçamento anual, o controle orçamentário, os relatórios mensais de acompanhamento das receitas e despesas, o novo organograma, as gerências, os cargos e a definição de competências”.
Como consequência da profissionalização foi inaugurada em 1976 a TV Gazeta, ocupando o 13º andar antes reservado para uma emissora de rádio, “para estabelecer uma intensa sinergia com o jornal”, como escreveu Cariê no livro “Eu e a Sorte” (2002).
A sugestão de criação de um canal de TV foi dada a Cariê pelo seu amigo José Pessoa de Araújo, dono da Rádio Uirapuru, que havia acabado de inaugurar uma emissora de televisão no Ceará.
Araújo enviou a Cariê o roteiro a ser seguido com um bilhete que dizia: “Pense bem nisso e boa sorte”. Cariê passou a considerar a sugestão ao pressentir que os jornais precisariam ter a companhia de uma emissora de TV caso desejassem prosperar.
Da decisão de criar a emissora de TV até colocá-la no ar, muitos obstáculos tiveram que ser vencidos. Cariê conta no seu livro que, ao mostrar, ao senador João Calmon, o projeto que pretendia conseguir recursos na Caixa Econômica Federal para montar a TV Gazeta, ouviu o seguinte comentário: “Estou com pena do seu pai, Cariê, porque vai perder aquela fazenda de Linhares e também os boizinhos...”. Felizmente, como escreveu Cariê, esses “vaticínios não se concretizaram”.
Entre as acertadas providências tomadas no processo de implantação da TV Gazeta estiveram a conquista, em concorrência, do canal 4, a afiliação à Rede Globo (“recém-criada, que crescia velozmente, atraindo cada vez mais, e a qualquer preço, os melhores talentos disponíveis”) e a contratação de dois profissionais experientes e competentes para a área técnica: Nelson Bonfante de Maria (“feições resolutas, porte de engenheiro parrudo, cabeça de filósofo, mãos calejadas de um técnico que manda, ensina, mas também pega no pesado e faz”) e Joisis Ubirajara Pinto, o Bira (“figura carismática e insuperável na área de operações, inexcedível em sua bondade”).
A história da TV Gazeta nesses 50 anos é conhecida. A construção da nova sede em Monte Belo, a expansão do grupo empresarial (com as emissoras do interior do Estado), a passagem do comando de Cariê para o seu filho Café, o avanço tecnológico com a transmissão digital (e o investimento na TV 3.0), a atualização permanente do modelo de gestão, a diversificação com a busca de novos negócios, e uma programação que reúne informação, cultura e entretenimento de inegável qualidade.
E tudo isso agregando o que é essencial em uma empresa de comunicação: mantendo uma total sintonia com a comunidade, o que tem como resultante uma prestação de serviços relevantes que agrega valor e desfruta de grande credibilidade entre os capixabas.