As luzes da cidade-presépio, vistas da janela do trem da Vitória-Minas, ficaram gravadas na minha memória e no meu coração. Próximo à chegada na Estação Pedro Nolasco, a locomotiva diminuía a velocidade e a paisagem surgia com maior amplitude, inteira, maravilhosa, enfeitando a noite estrelada.
A travessia de catraia, de Argolas ao Centro, na companhia de meu pai (devidamente protegido por um guarda-pó, ele que era capixaba da gema), completavam o cenário da cidade que, eu tinha certeza, me recebia de braços abertos.
Meus tios moravam na Avenida Pedro Palácios, no alto da Escadaria Maria Ortiz, de onde era possível ver parte do porto (e os navios, na minha memória, gigantes), as Lojas Helal Magazin (a mais bela de todas) e a imensa e charmosa Sapataria Indígena. Na Praça Oito, o relógio tocava o hino do Estado do Espírito Santo a cada hora.
A Flor de Maio era a loja mais tradicional, local onde uma de minhas tias tinha sido a primeira balconista da cidade, na época em que as mulheres eram, além de donas de casa, tão somente professoras ou enfermeiras.
Me encantavam o trânsito intenso de lotações e carros na Jerônimo Monteiro, a iluminação feérica da Costa Pereira (que muitos ainda chamavam de Praça Independência), o Parque Moscoso, os bondes e os cinemas. Em A Gazeta, a segunda página exibia os nomes dos filmes em cartaz.
A criançada – eu incluído, quando aqui passava as férias – brincava de pique-esconde na Praça João Clímaco, em frente à Assembleia e ao lado do Palácio Anchieta. Espetáculos à parte, pelo grande porte – ampliados pela minha imaginação –, eram a Catedral Metropolitana e o Estádio Governador Bley.
Já adolescente, vim para Vitória estudar no Colégio Estadual. Vivi intensamente o movimento estudantil da época, mesmo com as restrições impostas pelo governo militar. Cheguei a ser o presidente da Uages, a União Atlética Ginasial do Espírito Santo, nome preservado desde quando o Colégio Estadual se chamava Ginásio do Espírito Santo. Foi quando conseguimos fazer prevalecer alguns direitos – como o da Lei Arabelo do Rosário –- de abatimento de 50% nas passagens de ônibus.
Foi o movimento estudantil que abriu para mim as portas do jornalismo. Passei a escrever a coluna “O Diário Estudantil”, em “O Diário”, onde me tornei repórter e secretário de redação. Desde quando me transferi para A Gazeta, meus textos nunca mais deixaram de ser publicados.
Posso assegurar que, passadas mais de seis décadas da minha mudança para Vitória, meu amor pela cidade-presépio só fez crescer.
Fernando Madeira
Por isso, me entristeço quando percebo a decadência e o esvaziamento do Centro da cidade, ao mesmo tempo em que me emociono com cada tentativa de revitalizá-lo. Lamento profundamente quando iniciativas como a de transferir a Câmara Municipal para o centro se frustram. Mas aplaudo a restauração dos teatros, monumentos e outros equipamentos de arte e cultura.
Me revolto com a proliferação da população em situação de rua, entregue ao vício das drogas, com a falta de segurança – que nos impede de desfrutar mais da nossa bela cidade – e com a poluição das praias, logo as praias que são o nosso melhor patrimônio. Mas me empolgo com as obras que valorizam a cidade, como a passarela do canal de Camburi, que resgatam o nosso melhor cenário, a vista para o mar.
Às vésperas das comemorações do seu 475º aniversário, Vitória recebe um belo presente: a notícia de que acaba de assumir o primeiro lugar no Ranking de Competitividade dos Municípios brasileiros elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP) em parceria com a Cove Digital.
Nós, moradores e amantes da cidade-presépio, também nos sentimos presenteados e felizes, com a percepção de que podemos – quem sabe? – renovar as nossas esperanças de que, cada vez mais, a nossa Vitória se torne de fato um dos melhores lugares para se viver, como garante a peça publicitária exibida na TV.