Bolsonaro, há um ano, disse orgulhoso: “Acabei com a Operação Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo”. Que ele é um dos maiores responsáveis pelo fim da Lava Jato, não há dúvidas, pois foi a nomeação de Augusto Aras como Procurador-Geral da República que desencadeou o processo que desmontou as forças-tarefas daquela que, sem favor algum, foi a maior iniciativa de combate à corrupção da história do país. Mas afirmar que não há corrupção no governo é, no mínimo, temerário, já que a CPI da Covid-19 comprovou a atuação explícita de picaretas no Ministério da Saúde. Sem falar no processo que apura ações no Ministério do Meio Ambiente de participação em contrabando de madeira e crimes ambientais.
Se o atual governo assume a responsabilidade de ter acabado com a Lava Jato, dá razão a Sergio Moro que publicou um texto, no início do mês, em que afirma que “sepultada a Lava Jato pelo atual governo, a próxima vítima parece ser o Plano Real”. É o que indica a inflação dos últimos doze meses superior a 10%, muito acima da meta anual de 3,5%. E as ações – como o estouro do teto de gastos, o crescente endividamento do país, o calote nos precatórios e a distribuição desregrada de dinheiro público nos fundos eleitoral e partidário e nas famigeradas emendas do relator do Congresso – que sinalizam um descontrole nos gastos públicos e o enterro da política de responsabilidade fiscal.
Para quem não se lembra – ou finge não se lembrar –, o Plano Real representou uma das maiores conquistas do povo brasileiro ao nocautear uma hiperinflação sistêmica que corroía a economia brasileira e penalizava toda a sociedade, principalmente os mais pobres. Convivíamos em 1994 com uma hiperinflação de 46% ao mês quando o governo Itamar Franco, tendo à frente do Ministério da Economia o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, iniciou um audacioso processo de desindexação da economia.
Ao contrário dos planos econômicos anteriores que fracassaram, o Plano Real não congelou os preços praticados no mercado e atacou duramente os gastos dos governos. À implantação do Real como moeda nacional seguiu-se a Lei de Responsabilidade Fiscal que limitou os gastos públicos à arrecadação e estabeleceu punição para os agentes públicos que descumprissem esses limites. Foi graças à Lei de Responsabilidade Fiscal que a estabilidade econômica, alcançada com o Plano Real, se prolongou nas últimas décadas.
Pois é exatamente essa grande conquista do povo brasileiro que está em risco com a atual política econômica que caminha de braços dados com o apetite gastador do Congresso Nacional, turbinado pelo populismo que campeia às vésperas da campanha eleitoral. Não é sem razão que boa parte da equipe econômica pediu o boné ao perceber que o governo está levando a economia brasileira a um nível de deterioração que pode se tornar irreversível.
É lamentável que o Brasil tenha perdido a oportunidade de dar um basta na corrupção ao permitir o desmonte da Lava Jato. Será da mesma forma lamentável que venhamos a perder as conquistas tão duramente obtidas com o Plano Real se permitirmos que a classe política estenda tapete vermelho para a inflação e acabe de vez com a política de austeridade fiscal.