O ambiente é solene. Em torno de uma grande mesa em forma de “U”, o primeiro escalão do governo federal se reúne. No lugar principal, o presidente da República. Nas demais posições, os ministros e os dirigentes dos principais órgãos do governo. É de se supor que se trata de um momento para se decidir questões importantes para o país, principalmente em um período em que o coronavírus multiplica a quantidade de infectados e de vítimas fatais e que o Brasil se torna um dos maiores focos da pandemia no mundo.
Mas o que de fato ocorreu nesta reunião realizada em 22 de abril e que, por caminhos tortuosos, o país passou a conhecer? Ao invés de um debate racional e civilizado em torno de alternativas possíveis para combater a doença que se transformou na maior tragédia da humanidade nos últimos 100 anos, o Brasil assistiu a uma conversa de botequim, com mais palavrões e xingamentos do que ideias, onde as propostas não se referiam ao combate à pandemia mas sim a encontrar formas de reeleger o presidente, custe o que custar.
Enquanto covas são abertas às centenas para acomodar nos cemitérios os mil cadáveres que a cada dia saem dos hospitais do país, o presidente se limitou a xingar governadores e prefeitos que lutam contra a doença. Sua proposta é armar o povo para forçar os governadores e prefeitos a acabar com o isolamento social, única forma possível de evitar o contágio segundo as autoridades da saúde. “Quero todo mundo armado”, chegou a gritar para completar: “O povo armado jamais será escravizado”.
Enquanto isso, um dos seus ministros, ávido em agradar o chefe, pede a prisão dos ministros do STF e outro propõe “passar a boiada” na área do meio ambiente para aproveitar o fato de a imprensa só dar notícias da Covid-19. Houve até quem falasse em tomar um litro de cloroquina e dissesse que, naquela data, 22 de abril, “o tal famoso pico” da pandemia já havia passado.
O ministro da Saúde assistiu à reunião boquiaberto. Em uma fala curta se limitou a dizer que era preciso “investir em logística” e “melhorar o processo” de cuidados com a população. Não duvidamos se aquela esdrúxula reunião tenha contribuído para o seu pedido de demissão, formulado dias depois.
Ninguém tem dúvidas de que o presidente sempre teve o desejo de intervir na Polícia Federal. E que a reunião de 22 de abril foi uma das ocasiões em que ele aproveitou para cobrar mudanças ao ministro Sérgio Moro que resistiu a isso. Foi exatamente por isso que o vídeo da reunião foi requisitado pela Justiça. O vídeo, contudo, serviu para muito mais. Serviu para mostrar que o Brasil está sem governo, pois o governo que aí está não é digno de ser chamado por esse nome.