Em uma época na qual se multiplicam as fake news nas redes sociais da internet e que o radicalismo político se esmera em tentar desacreditar o papel exercido pelo jornalismo na sociedade, foi reconfortante assistir à esclarecedora palestra do jornalista Estevan Muniz, repórter especial do “Fantástico”, no lançamento do 26º Curso de Residência de Jornalismo da Rede Gazeta, ocorrido no dia 1º deste mês.
Muniz, além de apresentar parte do seu belo trabalho – reportagens que buscam escancarar as violações aos direitos humanos presentes no mundo como nos casos das crianças refugiadas que viram a morte de perto nas guerras, do drama dos sem-teto, dos trabalhos análogos à escravidão e dos crimes cometidos no ambiente virtual – ressaltou o importante papel que o jornalismo tem a cumprir de mostrar que os problemas existem e que a sociedade precisa conhecê-los.
“Nosso trabalho é informar. A informação pode mudar ou não as coisas. Mas pelo menos passamos a saber que o problema existe”, disse ele ao definir a missão do jornalismo: “Nós precisamos garantir o direito à informação. Queremos saber o que acontece e queremos que os outros também saibam”. Para Muniz, não podemos fingir que os problemas não existem: “Nosso compromisso é com o público; nossa militância é a informação”.
Muniz tem razão. O jornalismo profissional, exercido com responsabilidade, é uma conquista do mundo civilizado. Foi assim no final do século XIX quando surgiu a figura do repórter e os jornais, que eram veículos somente de opinião – dedicados à defesa de ideias e doutrinas – se transformaram predominantemente em órgãos de informação. Nasceu aí o gênero jornalístico, com as suas técnicas narrativas e o seu código de ética, conquistando um importante espaço na sociedade que, até então, só era informada através da oralidade quase sempre imprecisa de pessoas próximas.
Foi o jornalismo profissional que possibilitou às pessoas receberem informações tecnicamente apuradas em contraposição aos boatos, como eram chamados, na época, as fake news. No século XX o jornalismo se profissionalizou cada vez mais graças, também, ao desenvolvimento da tecnologia que possibilitou a distribuição da informação pelos mais variados meios, desde o impresso em rotativas à radiodifusão e, a partir dos anos 1990, à internet.
Essa evolução foi acompanhada, nos regimes democráticos, pela garantia do direito à informação combinada com a responsabilização nos casos de divulgação de inverdades ou imputação ofensiva à honra ou à reputação de alguém.
A internet se tornou, por um lado, uma aliada do jornalismo na medida que ampliou consideravelmente as possibilidades de distribuição da informação. Mas, por outro lado, sua popularização possibilitou, com a multiplicação das redes sociais e a dificuldade de apuração das responsabilidades, o surgimento de inúmeros outros disseminadores de informação e, com eles, a imensa proliferação de conteúdos falsos, as fake news.
Eis, então, que no início do século XXI o jornalismo profissional vem a ter reforçado o papel que exerceu há cem anos: o de se contrapor aos boatos, às notícias inverídicas, às fake news. E, em um mundo politicamente radicalizado, o jornalismo tem ainda que enfrentar as campanhas movidas exatamente pelos produtores de fake news que, com fins quase sempre não republicanos, procuram desacreditá-lo.
Em sua palestra, Estevan Muniz contou que, durante o holocausto, alguns prisioneiros judeus – que na cruel tática nazista eram obrigados a auxiliar a preparação do encaminhamento de outros judeus às câmaras de gás – narravam as atrocidades que presenciavam em pedaços de papel que escondiam enterrados. E que, ao receberem de alguém uma câmera e filmes escondidos, conseguiram documentar as atrocidades com fotos, complementando os escritos, para, em seguida, pedirem em um novo bilhete enterrado: “Mandem mais filmes”. Foi assim que o mundo pode tomar conhecimento de toda a dimensão do genocídio do holocausto.
É esse o papel cumprido pelo jornalismo profissional ontem, hoje e sempre: “Mandem mais filmes”, para que seja documentado o que se passa e para que todos nós possamos continuar a ser informados dos fatos, inclusive aqueles acontecimentos que os poderosos gostariam de manter escondidos da opinião pública.