Das boas lembranças que guardo de Geraldo Rocha, duas delas são as mais marcantes. Uma se refere ao profissional obstinado, focado em resultados, incansável na perseguição de metas e objetivos. A outra é a figura humana, solidária, sempre pronta a ouvir e a aconselhar, parceira e confiável.
A conjugação dessas qualidades resultou em uma pessoa amiga, de convívio prazeroso e um maravilhoso exemplo para todos nós. Conheci Geraldo durante a realização do projeto “Espírito Santo Século 21 – geração do futuro capixaba”. O projeto foi concebido no final de 1985 e lançado oficialmente em dezembro do ano seguinte, uma arrojada iniciativa de Carlos Fernando Lindenberg Filho, diretor da Rede Gazeta. Durante os cinco anos que se seguiram o projeto foi realizado graças à parceria da Rede Gazeta com a Ufes, Geres, Bandes e Coplan.
Foi um projeto ousado. Seu objetivo era o de “mobilizar a sociedade capixaba e motivá-la a prestar sua contribuição cultural e técnica na discussão dos problemas do Espírito Santo e no encadeamento de soluções que mais atendam aos anseios da população”. Se dispunha a definir um planejamento estratégico de longo prazo para o Estado que valorizasse, na execução, “tudo o que concorra para aprofundar o debate e evitar o que possa restringi-lo às minorias ou à superfície”, como escreveu Lélio Rodrigues, convidado a elaborar o projeto inicial.
Não era fácil levar adiante um projeto tão desafiador. Tanto que um jornalista comentou após ler o texto de Lélio: “Está me faltando lucidez para compreender esse projeto”. Isso bastou para que os colegas de redação, sempre irreverentes, quando chamados a colaborar com a divulgação dos eventos do projeto, o apelidassem de “guerra nas estrelas”.
Para enfrentar os desafios da execução do projeto, a Ufes escalou o professor Roberto Garcia Simões, o Bandes indicou o economista Geraldo Rocha e eu fui o escolhido pela Rede Gazeta. A execução se deu em três fases, sendo a primeira a elaboração, por especialistas criteriosamente escolhidos, de 28 documentos básicos sobre o Espírito Santo e a edição de um texto-síntese intitulado “Os grandes diretores do processo de transformação do Espírito Santo”.
A realização de reuniões em cada um dos municípios e de seminários nas oito microrregiões do Espírito Santo, compôs a segunda etapa que resultou na elaboração do documento “O futuro desejável da sociedade capixaba”. Foi nessa fase que eu, Roberto e Geraldo percorremos o Estado reunindo as lideranças mais expressivas de todas as cidades recolhendo contribuições que enriqueceram o trabalho.
A terceira e última fase do projeto constou da realização de debates sobre o texto produzido na fase anterior que reuniram os segmentos organizados da sociedade capixaba e, em seguida, discussões abertas ao público no auditório da Rede Gazeta. O projeto foi concluído em 24 de janeiro de 1991 com a edição do documento final intitulado “Agendas para o futuro”, cujo texto foi entregue às autoridades – em evento realizado na Rede Gazeta – e distribuído à sociedade em forma de caderno especial de A Gazeta.
O desempenho de Geraldo no “ES Século 21” foi tão marcante que ele, após a conclusão do projeto, passou a integrar os quadros da Rede Gazeta atuando na área de planejamento e de implantação do programa de Qualidade Total. Foi então que eu e ele nos aproximamos ainda mais, consolidando uma grande amizade que atravessou os anos que se seguiram.
Geraldo partiu no dia 27, enquanto cochilava após o café da manhã, como me contaram. Recebi a notícia do seu falecimento pelo amigo Leonel Ximenes. No dia seguinte, acompanhei o culto de gratidão pela sua vida na Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória, onde Geraldo era presbítero emérito. Lembrei-me da cantata de natal que assisti naquele local, há alguns anos, como seu convidado. Recordei passagens da vida de Geraldo com alguns de seus ex-colegas de trabalho. Abracei os seus filhos e me despedi do amigo.
E me confortei ao ouvir o celebrante do culto citar a frase de Jesus no Evangelho de João: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá”.