Lula ocupa bem os espaços políticos, beneficiado pelo isolamento voluntário de Bolsonaro. O presidente da República se confinou no Palácio da Alvorada abalado pela derrota eleitoral. Ao que parece, Bolsonaro repetiu tanto que não confiava nas pesquisas de intenção de voto – a não ser no folclórico “datapovo”, que não era nada mais do que as aglomerações que promovia em seus comícios e motociatas – que passou, de fato, a acreditar que venceria as eleições com facilidade. Bolsonaro não tinha os votos que imaginava ter e isso, muito provavelmente, o deixou frustrado e descompensado. Daí ter se isolado desde a divulgação do resultado das urnas.
Melhor para Lula, que passou a dominar a cena como presidente eleito. Habilidoso, Lula colocou Alkmin à frente da estrutura de transição – que, cada vez maior, corre o risco de se tornar uma multidão incapaz de realizar algum trabalho útil que possa ser aproveitado no futuro governo – e ficou livre para circular no meio político, inclusive nas áreas dominadas pela oposição. Abriu diálogo com o presidente da Câmara dos Deputados e outros líderes do Centrão e, num gesto mais ousado, seguiu com uma delegação para a COP 27, a conferência das Nações Unidas sobre o clima, no Egito, roubando a cena que caberia ao governo atual, o qual, afinal de contas, ainda tem mandato vigente até 31 de dezembro.
Lula sentiu-se tão à vontade que passou a ultrapassar os limites da prudência e do bom senso. Mesmo antes de embarcar em um jato de um empresário que passou pelas prisões da Lava Jato – erro primário que pode lhe custar caro politicamente –, Lula já havia excedido em declarações onde criticava “essa tal de estabilidade fiscal”. Ambos os episódios – o uso do jato e a crítica à estabilidade fiscal – demonstram, com clareza, que Lula está se sentindo empoderado pela vitória a ponto de não dar importância ao que os outros vão dizer. Algo parecido com o que deve ter sentido quando o triplex do Guarujá recebeu benfeitorias pagas pela OAS e o sítio de Atibaia foi reformado pela Odebrecht.
No Egito, o discurso de Lula continuou livre e solto, insuflado pelos aplausos da claque de brasileiros que o acompanhava. Lula acerta quando defende a preservação da Amazônia, recolocando o Brasil na agenda ambiental correta defendida pela comunidade internacional, da qual Bolsonaro se afastou a ponto de o país receber sanções da Alemanha e da Noruega. Mas comete o erro grosseiro de colocar a estabilidade fiscal como antagônica da política social.
Qualquer pessoa medianamente esclarecida sabe que a estabilidade fiscal é condição básica para que prosperem as ações sociais. Para implementar uma política social consistente, é imprescindível que o país esteja com as contas em dia. Quando um governo gasta mais do que arrecada, recorre ao endividamento que gera inflação que corrói o poder aquisitivo de todos, principalmente o dos mais pobres. Como bem definiu Simone Tebet, ao comentar a “PEC da Transição” – que já está sendo chamada de “PEC da Gastança” –. é preciso ter cuidado com o gasto público porque podemos “estar dando com uma mão e tirando com duas”.
Que Lula é contra o teto de gastos, ninguém desconhece. Bolsonaro também é. Ambos disseram isso durante a campanha eleitoral. Bolsonaro, ao furar o teto de despesas, alegava ter feito isso por causa da pandemia. Lula alega precisar de dinheiro para pagar o Auxílio Brasil de 600 reais mas, empoderado, quer furar o teto por tempo indeterminado. Tanto Lula quanto Bolsonaro – assim como todos os políticos que os cercam – sabem que o país não tem dinheiro suficiente para bancar o volume incontrolável de gastos prometido nas campanhas. É sinal que vem inflação por aí, e que ela não vai ser pequena. Só nos resta preparar nossos bolsos para, mais uma vez, pagar a conta que, inevitavelmente, virá.