O ministro do STF Luís Roberto Barroso costuma repetir em suas palestras que o povo brasileiro foi capaz de alcançar conquistas maiúsculas nas últimas três décadas como a estabilidade constitucional (após o fim do regime militar), a estabilidade monetária (com o Plano Real derrotando a megainflação dos anos 1980 e 1990), a expressiva inclusão social (ao tirar da linha da pobreza uma grande parte da população, embora muitos tenham voltado a ela com a recessão dos governos Dilma Rousseff e, mais recentemente, no período da Covid-19), e o avanço nos direitos humanos (como, por exemplo, a maior participação da mulher na população economicamente ativa).
Por isso, Barroso se mostrava confiante de que o brasileiro seria capaz, também, de acabar com “a corrupção estrutural endêmica” a partir da brilhante atuação da Operação Lava Jato que, em suas 80 fases operacionais, efetuou 132 prisões preventivas e apresentou 130 denúncias contra 533 acusados que resultaram em 278 condenações de 174 réus, entre os quais cabeças coroadas de nossa política e do mundo empresarial. Sem falar dos R$ 25 bilhões devolvidos aos cofres públicos, dos quais R$ 6,28 bilhões retornaram aos cofres da Petrobras.
Em suas palestras, Barroso citava o mérito da Lava Jato de desnudar que “a corrupção no Brasil era fruto de um pacto oligárquico, de saque ao Estado, para beneficiar campanhas eleitorais e bolsos privados”. Segundo Barroso, o padrão de fazer política e negócios no Brasil pode ser assim resumido: o “agente político relevante nomeava alguém com metas de fazer dinheiro”, esse alguém fraudava licitações, superfaturava contratos e desviava recursos “para partidos e pessoas”. Para ele, é preciso que todos compreendam que o crime de colarinho branco “é gravíssimo porque mata” ao tirar leitos de hospitais e escolas dos mais pobres.
Barroso revelava, a partir do êxito da Lava Jato, que passou a crer em “um momento de refundação do país (...) independente de ideologias”. Ele se baseava – como disse em palestra em Vitória em abril de 2019, nas “mudanças ocorridas na sociedade civil” que, como ele acreditava, “deixou de aceitar o inaceitável e desenvolveu uma imensa demanda por integridade, idealismo e patriotismo”.
No STF, Barroso sempre pautou a sua atuação na defesa da Lava Jato. Quando estava em julgamento a suspeição de Sergio Moro nos processos que condenaram Lula, Barroso travou um debate histórico com Ricardo Lewandowski. Lewandowski argumentava que a atuação da Lava Jato havia dado prejuízos financeiros ao país e foi contestado por Barroso: “Então, Vossa Excelência acha que o problema então foi o enfrentamento da corrupção e não a corrupção? (...) Então, o crime compensa para Vossa Excelência”. Antevendo o que viria depois – as perseguições a Moro e a Deltan Dellagnol –, Barroso chegou a dizer que “no Brasil, os corruptos querem mais do que impunidade, querem vingança!”
Barroso, no último dia 2, foi hostilizado por bolsonaristas no aeroporto de Miami. Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Sua crença nas mudanças para melhor na sociedade civil já não devem ser as mesmas. Nessa ocasião, disse Barroso: “É uma mistura de ódio, ignorância, espírito antidemocrático e falta de educação. O Brasil adoeceu. Espero que consigamos curá-lo e que uma luz espiritual ilumine essas pessoas”.
Sei não, mas depois da depredação do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo no último domingo ficou claro que o Brasil está muito mais doente do que imaginava Barroso. As esperanças de mudanças positivas na sociedade brasileira, por outro lado, nunca estiveram tão distantes. É sinal de que a “luz espiritual” sonhada por Barroso ainda vai demorar muito para chegar, se é que vai chegar algum dia.