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Política

Brasil do atraso: velhos personagens de um filme repetitivo

Tanto Lula quanto Bolsonaro estão dispostos a se manterem presos ao passado, mesmo que isso represente discursos repetitivos, rotos e desbotados, já conhecidos por todos

Públicado em 

02 fev 2024 às 01:45
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Lula adora ter Bolsonaro como adversário (ou inimigo) e Bolsonaro adora ter Lula como inimigo (ou adversário). Um se alimenta do ódio do outro e querem repetir o filme da polarização tantas vezes quanto isso for possível. Lula acredita que a polarização entre os dois permitirá que ele, no mínimo, se reeleja mais uma vez como presidente em 2026. Bolsonaro tem certeza de que, em uma próxima eleição, seja quando for, irá derrotar Lula ou um de seus prepostos. Ambos estão dispostos a dobrar a aposta tantas vezes for possível.
Isso explica o fato de que tanto Lula quanto Bolsonaro estejam dispostos a se manterem presos ao passado, mesmo que isso represente discursos repetitivos, rotos e desbotados, já conhecidos por todos. Eles creem firmemente que esses discursos, repetidos à exaustão, são os que as suas militâncias querem e precisam ouvir.
Ambos dizem as mesmas coisas que já disseram no passado ou, no máximo, se esforçam em construir novas narrativas para justificar os erros que cometeram. Não percebem que estão inteiramente mergulhados em um tempo que já passou.
Lula chega a manter os mesmos nomes e vícios do passado. PAC (inaugurando obras feitas por outros governos), Bolsa Família (com efeitos sociais duvidosos), Minha casa minha vida (que não atinge as famílias carentes que mais precisam), e a “nova” indústria Brasil (que de nova não tem nada, já que se apoia em velhas políticas cujos resultados, no passado, mostram terem efeitos reduzidos).
Sem falar na insistência, comprovadamente negativa, de estreitar laços com ditaduras latino-americanas com as de Maduro, Ortega e a cubana, e de se alinhar do lado contrário ao dos países democráticos nos conflitos internacionais, como ocorre no apoio aos terroristas do Hamas e ao invasor Putin. Acrescente-se à lista de seus equívocos a insistência de proteger seus amigos, como na indicação de seu advogado pessoal Cristiano Zanin para o STF, a nomeação do seu “protetor no STF” Lewandowski como ministro da Justiça e a tentativa de emplacar Guido Mantega como presidente da Vale.
Bolsonaro, por sua vez, mostrou, na sua live de domingo, 28 de janeiro, que também continua acorrentado a velhos temas do passado, como levantar dúvidas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas e a defender o armamento da população. Só faltou, talvez por falta de tempo, o seu antigo hábito de condenar as campanhas de vacinação. Para ser justo com o ex-presidente, ele acrescentou um tema mais atual à sua cartilha, ao dizer que “o 8 de janeiro foi uma farsa” e que a invasão e depredação aos prédios dos três poderes não foi uma tentativa de golpe de Estado porque lá não havia “um fuzil”. Fingiu não ter visto que quem tinha fuzil eram as Forças Armadas a quem a multidão de manifestantes clamava por intervenção.
Tanto Lula quanto Bolsonaro tentam, a seu modo, inventar narrativas para sustentar suas teses requentadas. Lula, para não admitir que houve corrupção na Petrobras, chega ao absurdo de dizer que tudo não passou de uma conspiração de “alguns juízes e procuradores desse país, subordinados ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos (que) não queriam e nunca aceitaram que o Brasil tivesse uma empresa como a Petrobras”.
Finge, é claro, esquecer que a Petrobras já recebeu de volta R$ 6,2 bilhões que haviam sido desviados dos seus cofres e que outros R$ 25 bilhões estão prestes a serem devolvidos se, é claro, o STF não anular, no plenário, os acordos de leniência, como alguns de seus ministros fizeram em decisões monocráticas.
Já Bolsonaro procura sustentar que nunca interferiu na Polícia Federal ou procurou ter informações de uma “Abin paralela”, apesar de isso estar explícito na gravação da reunião ministerial de abril de 2020, que foi tornada pública por decisão do STF, aquela mesma reunião em que um dos ministros propôs “ir passando a boiada” enquanto a imprensa se ocupava da pandemia da Covid-19.
Candidatos Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva durante debate eleitoral na TV Globo
Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva em debate de 2022 Crédito: Stephanie Rodrigues/g1
Na reunião, Bolsonaro é claro quando diz, com relação ao sistema de informação, que “o meu particular funciona; o oficial(...) desinforma”. E quanto à segurança: “Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira”.
Diante de tudo isso, só nos resta lamentar estarmos todos diante de um debate tão empobrecido que não consegue se libertar de propostas superadas incapazes de lançarem um simples olhar para a frente. É o Brasil do atraso, a espera, quem sabe, de um milagre que nos livre dos populismos radicais que tanto turvam o nosso futuro.

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço.

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