A presença do líder do MST, João Pedro Stédile, na comitiva de Lula na viagem à China, evidencia, mais uma vez, o posicionamento equivocado do governo federal com relação às invasões de terra no Brasil. O MST já promoveu 29 invasões de propriedades produtivas desde a posse de Lula – dez delas na última segunda-feira –, mais do que em todo o ano passado.
E anuncia uma série de outras “ocupações” até o final de abril, naquilo que o movimento chama de “abril vermelho” para relembrar a morte de 19 militantes em Eldorado de Carajás em abril de 1996. Invasão de propriedades, sejam elas públicas ou particulares, no Brasil – não é preciso repetir – é crime.
A participação de Stédile na comitiva tem sido duramente criticada, inclusive por aliados do governo, já que as invasões patrocinadas pelo MST têm sido feitas por motivos unicamente ideológicos. O MST se sente com o direito de decidir se a terra é produtiva ou não, a ponto de ter justificado suas ações na Bahia e Aracruz – quando invadiu plantações de eucalipto da Suzano destinadas à produção de celulose – com base no seu entendimento de que aquelas terras deveriam ser cultivadas para a produção de alimentos. Finge desconhecer que a silvicultura é uma das atividades econômicas mais importantes do planeta, adotada inclusive em países do chamado primeiro mundo.
Por representar a presença de alguém que faz incitação explícita a um crime – como denunciou o deputado Evair de Melo (ES), vice-líder do PP na Câmara – a ida de Stédile à China representa mais um grave erro político do presidente da República. O episódio se soma à leniência com que se comporta o governo Lula com relação às invasões de terras.
Quando da invasão das propriedades da Suzano, o máximo que os ministros do governo ligados à área rural disseram é que iriam fazer uma “mediação” do conflito, proposta que, rapidamente, foi superada pela Justiça que concedeu a reintegração de posse aos proprietários.
A reação à participação de Stédile na comitiva foi imediata. Além das críticas de oposicionistas e até de governistas, o fato acirrou os ânimos no Congresso Nacional que anuncia a criação de uma CPI para apurar as ações do MST. Evair de Melo já deu o tom da reação ao pedir à Procuradoria Geral da República a investigação de Stédile por fazer “apologia de fato criminoso e associação criminosa”. No Congresso é conhecida a força da bancada do agronegócio que conta com a adesão de mais de 300 parlamentares.
Além dos problemas que causa ao governo – como as invasões de sedes do Incra e fazendas da Embrapa – o MST prejudica o país ao não perceber que o agronegócio tem hoje uma presença expressiva na economia brasileira, totalmente diferente daquela de décadas atrás. O Brasil é hoje um dos maiores produtores de alimentos do mundo e a política adotada nos últimos dois governos – de Temer e Bolsonaro – se mostrou acertada ao priorizar a concessão de títulos de terras aos assentados transformando-os em pequenos produtores o que os coloca, em consequência, fora do controle e da dependência do MST.
Se quiser evitar novos problemas com o Congresso – e com a CPI que lá deverá ser instalada –, o governo Lula precisa reposicionar as suas relações com o MST. A começar por tornar explícita a condenação à invasão de propriedades e a dar limites à ação de Stédile e companhia. Até porque a “companhia” de Stédile, cada vez mais, se compõe de pessoas recrutadas na periferia das cidades que pouco, ou nada, têm a ver com a agricultura.
Talvez seja querer muito sonhar que Lula reconheça – logo ele que tem tanto apego às suas teses do passado, a ponto de adotar nos cem dias de governo o slogan “o Brasil voltou” – que o Brasil mudou e que não vale mais a pena apostar na velha política dos conflitos do campo e sim na pacificação das relações que possam incentivar os ruralistas – pequenos, médios ou grandes – a produzir mais e melhor; caminho, esse sim, capaz de beneficiar a toda a sociedade brasileira.