A vitória da Independente de Boa Vista no desfile das escolas de samba coroou a justa homenagem ao fotógrafo Sebastião Salgado. Com o enredo “Os olhos do mundo: assombros de Sebastião Salgado”, a escola recordou, no desfile, com fidelidade, as várias fases da vida de Sebastião, o aimoreense que se formou em Economia em Vitória, ganhou o mundo ao trabalhar na Organização Internacional do Café e ao receber, como presente de sua mulher, a sua primeira máquina fotográfica.
Foi aí que Sebastião Salgado se apaixonou pela fotografia ao passar a retratar em preto-e-branco, em vários países, pessoas violadas em sua dignidade pelas tragédias das guerras, das desigualdades e da pobreza extrema.
São belas obras de arte os álbuns “Trabalhadores”, “Terra”, “Serra Pelada”, “Outras Américas”, “Retratos de Crianças do Êxodo”, “Êxodos” e “Gênesis”, entre tantos outros produzidos por Sebastião, e tão bem lembrados no desfile da Boa Vista. Como Salgado comentou no documentário “Sal da Terra” – produzido, sobre sua trajetória, pelo seu filho Juliano e o alemão Wim Wenders –, ao produzir “Êxodos”, em 1998, ele entrou em crise profunda impactado pelo drama dos refugiados, entre os quais o genocídio de Ruanda, na África. Disse, na época, que se sentiu descrente da humanidade e que sua “alma estava doente”.
Foi nessa ocasião, 1998, que Salgado retornou ao Brasil e conseguiu superar o desânimo que o atormentava ao se entusiasmar com um novo desafio: o de reflorestar a Fazenda Bulcão, que havia pertencido aos seus pais, em Aimorés, e que estava completamente degradada pelo uso intensivo da pecuária.
Nascia aí o Instituto Terra, hoje uma ONG de referência mundial em restauração sistêmica, educação ambiental e desenvolvimento sustentável, reconhecida como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). O Instituto Terra é responsável pelo surgimento da nova floresta de alta biodiversidade com mais de 3 milhões de árvores nativas e a recuperação de mais de duas mil nascentes em 1,1 mil pequenas e médias propriedades rurais na bacia do Rio Doce.
Os rápidos resultados de recuperação ambiental do Instituto Terra fizeram com que Sebastião Salgado recuperasse o desejo de voltar a fotografar e, por isso, a partir de 2004 ele se dedicou aos oito anos de produção de “Gênesis” que retrata a natureza ainda intocada do planeta.
Agora com Juliano Salgado, filho de Sebastião, na presidência do Conselho Diretor, o Instituto Terra anuncia com otimismo os seus novos projetos: com a compra de uma propriedade vizinha de 244 hectares, a ONG aumentou a sua área em 50% e irá reforçar a biodiversidade da floresta com o refúgio de um número maior de espécies animais, e ampliar os testes em técnicas de plantios feitas sem o uso de herbicidas e outros produtos poluentes do lençol freático. A expansão permitirá também a implantação de um novo viveiro de mudas nativas com a capacidade de gestar até 2 milhões de mudas/ano.
A ampliação possibilitará a execução, em 5 anos, da primeira fase do programa Terra Doce que se propõe a restaurar 4,2 mil nascentes no baixo e médio Rio Doce, inclusive no Espírito Santo, e o plantio de milhões de árvores nativas em 600 propriedades rurais, beneficiando 2,1 mil famílias que passarão a praticar modos de produção agroflorestais. Na sua segunda fase, o projeto pretende restaurar outras 50 mil nascentes e implantar uma cadeia de produção baseada em sistemas agroflorestais.
A obra de Sebastião Salgado, homenageada com justiça pela Boa Vista, não se resume, assim, à sua magnífica e premiada produção fotográfica que escancara aos olhos do mundo as injustiças das desigualdades. Ela também se mostra exuberante ao demonstrar na prática, com o Instituto Terra, na bacia do nosso querido e tão maltratado Rio Doce, que construir um novo modelo de mundo sustentável é possível e necessário.