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Política

Meneguelli e o terno na Assembleia: a República dos Palácios

Por que razão a Casa do Povo, que representa os interesses de uma população majoritariamente pobre, desassistida e às voltas com problemas que vão da fome à falta de médicos, remédios e hospitais, exige dos deputados paletó e gravata?

Publicado em 25 de Fevereiro de 2023 às 00:10

Públicado em 

25 fev 2023 às 00:10
João Gualberto

Colunista

João Gualberto

Deputados tomam posse na Assembleia Legislativa do ES
Sergio Meneguelli Crédito: Fernando Madeira
O deputado estadual recém-eleito Sergio Meneguelli – verdadeiro fenômeno eleitoral de 2022, o mais votado do estado e proporcionalmente o mais votado do Brasil – não pretende comparecer às sessões da Assembleia Legislativa de terno, como prevê o regimento interno da casa. Quer continuar usando suas camisas com o slogan "I love Colatina", numa versão local da marca que consagrou Nova York.
Como uma solução para o dia da posse, usou um blaser jeans. Uma solução bem na linha do jeitinho brasileiro. Pelo que a imprensa informa, ele pretende continuar com a sua informalidade que rendeu uma multidão de votos. Tem lá suas razões. Mesmo porque há um deputado da extrema-direita que comparece de uniforme policial, mesmo sendo reformado, portanto não está de terno. Por que não o "I love Colatina"? Cada um com o seu marketing.
Embora não me pareça que o deputado queira politizar sua postura pessoal, ela comporta uma análise. Por que razão a Casa do Povo, que representa os interesses de uma população majoritariamente pobre, desassistida e às voltas com problemas que vão da fome à falta de médicos, remédios e hospitais, exige dos deputados paletó e gravata? Esteticamente, a nossa casa de leis está perdida nos anos 1950, quando era exigido de todas as autoridades uma sobriedade que somente o terno podia expressar.
Nos tempos das redes sociais, no mundo da informalidade dos influenciadores digitais, em uma sociedade que veste bermudas, esse tipo de exigência me parece anacrônica, elitista e excessivamente formal. O razoável seria acabar com esse tipo de formalidade, dando àquela casa a cara que o nosso país quente, informal e pobre tem. Certo está o deputado Meneguelli quando quer manter o seu estilo consagrado de campeão de votos.
Aliás, o anacronismo estético do poder no Brasil também se expressa em outros espaços. Quando a República foi implantada no Brasil, em 1889, o foi através de um golpe militar, uma quartelada conduzida pelas elites até então monarquistas e insatisfeitas sobretudo com o fim do trabalho escravo. Não foram razões exatamente democráticas. A República consagrou um poder no qual o mandatário maior era uma espécie de imperador por quatro anos. Centralizador, autoritário e pilotando um regime excludente e machista.
Restos dessa postura ainda estão aí. Tanto é que nossos governantes habitam palácios, na velha nomenclatura imperial. Existem palácios para tudo, para o Executivo, para o Legislativo e para o Judiciário. Todo prédio imponente vira um palácio. Restos de um passado que insiste em ser presente. O mundo simbólico também se transforma em real como todos sabemos. O real simbólico brasileiro habita palácios vestido de terno. Mais distante do povo impossível.
A sociedade brasileira tem importantes problemas a resolver para se tornar moderna, igualitária. Certamente enfrentar todos esses problemas exige coragem e abandono de velhas posturas. Existe muita coisa a ser desconstruída nessa longa trajetória. Existem prioridades certamente, mas o elitismo e a distância da população que se expressa uma forma de se vestir da velha república que morreu em 1930, há quase um século, certamente é uma delas.

João Gualberto

É professor emérito da Ufes, doutor em Sociologia Política pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (França). Foi Secretário de Cultura do Espírito Santo entre 2015 e 2018. História e sociologia do cotidiano. Um olhar sobre o Brasil e o Espírito Santo

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