Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Marketing

'O homem que sabia demais'

Esse homem que sabia demais é uma figura popular neste nosso mercado de marketing, comunicação, branding e áreas vizinhas. Já conheci vários, embora não tenha feito negócio com nenhum

Publicado em 02 de Abril de 2025 às 03:00

Públicado em 

02 abr 2025 às 03:00
Jaime Troiano

Colunista

Jaime Troiano

Muitos devem se lembrar de um dos clássicos do Hitchcock com esse nome: “O homem que sabia demais”. É a história do homem que detinha informações tão importantes que acabou pondo em risco a vida de sua propria família!
Em relação ao filme, no entanto, há duas diferenças nesta minha história, que trata de um outro homem. A primeira é que o homem de que eu quero falar pôs em risco a vida de seus negócios, mais do que da sua família, ainda que ela também sofra com isso. A segunda é que, ao contrário do filme, este a que me refiro no artigo é um homem que supõe saber demais. Na verdade, ele não sabe tanto, embora acredite que sim. E, por isso, pensa e se comporta como quem sabe demais. E como consequência, corre perigo, melhor dizendo, põe em perigo seus negócios.
Esse homem que sabia demais é uma figura popular neste nosso mercado de marketing, comunicação, branding e áreas vizinhas. Já conheci vários, embora não tenha feito negócio com nenhum. Alguns amigos meus o chamam de o articulado incompetente. O tipo que, no começo de uma reunião, costuma dizer: “Antes de dizer o que eu penso, quero falar algumas palavras”. Ele é um espelho de si mesmo, uma expressão narcísica muito bem acabada!
Para ser muito sincero, chego a me sentir um panaca diante dele! Tudo que eu procuro fazer, todo o esforço para conhecer o comportamento dos consumidores e das marcas parece um trabalho sem nenhum sentido para ele. Parece até que ele é mesmo um homem que sabe demais. Aí eu paro, dou um tempo... e percebo que, por trás de toda a sua afetação, há um profundo temor de confrontar suas certezas com informações de mercado.
Depois de ter conhecido alguns deles e depois de ter visto como, de fato, eles não sabiam tanto como supunham, acabei relacionando algumas de suas frases mais típicas. São argumentos que sempre tentam mostrar o quanto pesquisas de comportamento de consumidor e avaliação de marcas são dispensáveis.
Aí vão alguns desses argumentos do homem que (supostamente) sabia demais:

1º - “Nada substitui o conhecimento autêntico de quem está todo dia neste negócio”

Infelizmente para ele, essa onipotência quase divina não resiste, muitas vezes, a um confronto de suas opiniões com dados objetivos que vêm da rua e refletem os verdadeiros sentimentos dos consumidores. Ele acha que vox populi, vox dei é apenas a assinatura publicitária de alguma empresa.

2º - “Pesquisa é uma despesa muito cara”

Quando a conversa envereda por aí, já passa a existir alguma brecha para discutir. Você compara com outras despesas da empresa e, principalmente, com o quanto a pesquisa pode evitar inúmeras outras despesas, por orientar melhor os caminhos do seu negócio. Além disso, não custa lembrá-lo de que despesa talvez não seja a melhor palavra. Compreender o consumidor e sua relação com as marcas é muito mais do que despesa, é um grande investimento.

3º - “Meus vendedores são a minha melhor pesquisa”

Olha aí, já fica difícil outra vez continuar a conversa. O que eu posso dizer a ele, sem ser indelicado? Que o vendedor, mesmo que inconscientemente, é a raposa tomando conta do galinheiro. Que é impossível, mesmo com toda boa intenção do mundo, eliminar a filtragem de informações que circula na empresa de baixo para cima. Que o vendedor pode ser excelente na área comercial, mas a compreensão do comportamento do consumidor transcende suas atribuições. E vocês, o que diriam a ele?

4º - “Eu não posso esperar tanto tempo para tomar decisões”

O homem que sabia demais normalmente é muito ocupado, considera que os processos que se desenrolam ao seu redor são lentos. Esperar pelo resultado de um estudo é um contrassenso. Por causa disso, aquela profecia que diz “Você nunca tem tempo para acertar mas tem tempo para errar” frequentemente se concretiza.
No filme do Hitchcock, o filho do casal acaba sendo salvo por uma canção. A inesquecível Doris Day cantando: “Que será, será. O que tiver que ser será...” E a letra continua, falando de que não podemos antecipar o futuro e prever exatamente como ele será.
Reunião, negócios, reunião de negócios
Reunião Crédito: Shutterstock
Seria muito pedir que o nosso homem que sabia demais ouvisse a canção uma vez por semana? Que ele aceitasse a dúvida como uma das variáveis mais relevantes de marketing?
Aliás, por falar em cinema, quem recentemente viu outro filme, o "Conclave"? Talvez se lembre um tema que o Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes) defende. De forma muito resumida, ele diz: “Nossa fé é uma coisa viva precisamente porque anda de mãos dadas com a dúvida”. Enfim, salve a dúvida que nos protege, que nos aconselha e nos afasta das certezas que não têm sustentação.

Jaime Troiano

Engenheiro Químico e Sociólogo, CEO da TroianoBranding. Escreve sobre o papel estratégico das marcas para a economia e a sociedade

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Para que serviu a guerra? A pergunta inevitável levantada pelo acordo entre EUA e Irã
Imagem de destaque
A Copa do Mundo dos ultrarricos: pacote de R$ 20 milhões para a final, jatinho entre os estádios e encontro com jogadores
Imagem de destaque
Brasil x Haiti: qual resultado a Seleção precisa para chegar na próxima fase da Copa?

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados