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Jaime Troiano

Branding é mais do que eficácia comercial

Neste texto porém, quero me concentrar num conto que sempre me assombrou, desde que me envolvi com esta minha profissão. O conto chama-se "O espelho"

Publicado em 03 de Junho de 2026 às 02:30

Públicado em 

03 jun 2026 às 02:30
Jaime Troiano

Colunista

Jaime Troiano

Um dos meus autores de cabeceira é Machado de Assis. Acho que desde os tempos de escola, já li a obra quase completa. Mas há alguns temas na sabedoria dele que me parecem mais poderosos ainda atualmente. Ele escreveu, além dos livros, uns duzentos contos. 


Muitos de vocês já passaram pelo "Alienista", ou pelo "A Cartomante" ou "Teoria do Medalhão". Um dia, prometo voltar a eles pela conexão que eles evocam com nossas atividades de marketing, comunicação e branding. 


Neste texto porém, quero me concentrar num conto que sempre me assombrou, desde que me envolvi com esta minha profissão. O conto chama-se "O espelho – esboço de uma nova teoria da alma humana". 

O escritor Machado de Assis
O escritor Machado de Assis Reprodução

Não sei julgar o quanto ele é melhor avaliado do que dezenas de outros do autor, pelos especialistas em nossa literatura. Alguém saberá dizer. Mas o que me interessa é por que "O Espelho" é um conto de que eu não consigo me libertar. Ele me inquieta pelas várias conexões que faço com nossa vida pessoal e, acreditem, com minhas investidas diárias na vida profissional. Quem me conhece bem sabe disso.


A vontade que eu tenho é pedir a vocês que parem de ler este artigo, leiam o conto e depois, se sentirem vontade, voltem para conferir o que escrevo.


Não vou reproduzi-lo, mas apenas pontuar o essencial para que vocês comparem com  conto e tirem suas próprias conclusões. Jacobina é um alferes, no Rio de Janeiro do final do século 19. Alferes é um antigo posto militar, equivalente hoje à patente de segundo-tenente. Jacobina recebe seu fardamento, o que faz com que ele se reconheça como pessoa e ser reconhecido socialmente também. Sem o fardamento, sua própria imagem desvanece. Diante do espelho ele não se vê. De divãs de psicanálise a treinamentos corporativos, esse é um texto quase obrigatório. Não percam.


Bem, a conexão que eu faço com o conto é a seguinte: marcas são “fardamentos”? Recursos que deveriam contribuir para configurar nossa identidade e atender necessidades, de diversos níveis. Mas nunca para apagar o que somos como sujeitos, acima de tudo. Nunca para nos ocultar, por meio de uma persona com a qual elas, as marcas, nos vestem. 


E daí, vem a delicada pergunta que eu vivo me fazendo. No mundo do branding, que é meu dia a dia profissional, qual é nosso papel? Alimentar o Jacobina que existe dentro de nós, impondo de forma sedutora e autoritária uma identidade que, no fim das contas, contribui pouco para nossos autênticos projetos de felicidade? Seria isso mesmo?


Quantas vezes o “consumidor Jacobina” não consegue se identificar consigo mesmo, ou não se vê no espelho social, quando não tem acesso às marcas que ele admira?


Durante décadas, eu tenho vivido essa tensão. Uma tensão entre o que nós fazemos nesta profissão, contribuindo para alimentar os negócios de empresas que, em última instância, também desenvolvem a economia, e o quanto consumidores são atendidos nos seus legítimos desejos e necessidades. 

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A pergunta não se cala, e a resposta mais comum que costumo ouvir é do tipo evasiva. Algo assim: nós não estamos atropelando os desejos e necessidades dos consumidores com as marcas que eles acabam comprando. Ou, eles têm sempre o livre arbítrio a seu favor para decidir o que, de fato, querem e podem adquirir. Ou, alguns enfrentam a pergunta de outro jeito: nós não criamos desejos inexistentes nos outros, mas apenas identificamos aquilo que eles querem, mesmo que não tenham consciência disso.


E há os que, simplesmente, viram as costas para essa dúvida. Porque o importante seria, acima de tudo, a eficácia comercial da marca e sua capacidade de multiplicar os negócios da empresa em seu mercado. 


Por outro lado, há os seus opostos: os que veem um papel perverso nas marcas ao dirigir o comportamento do consumidor, como se elas fossem uma tutora de almas infantis que não sabem decidir por si. São os que afirmam, por exemplo, que as marcas deveriam estar sob suspeição por alimentarem a inadimplência das famílias. A bíblia desse grupo são livros como o "No Logo" da Naomi Klein.


Esses dois grupos dormem em paz com sua consciência. Afinal, suas respectivas convicções não exigem qualquer esforço intelectual nem tensões morais. 


Eu não! E muitos que trabalham comigo ou já trabalharam têm essa inquietação à flor da pele. Não pertencemos a nenhum dos dois grupos. 


Nós não acreditamos que o indicador supremo de qualidade e êxito de uma marca seja, acima de tudo, sua eficácia comercial. Ela só será bem sucedida, e por mais tempo, se não for apenas um “fardamento” social. Se atender necessidades, sejam elas funcionais, objetivas ou emocionais, mas autênticas.


Nós, somos a única espécie animal que procura um sentido para as decisões que tomamos na vida. Não somos movidos por instintos, mas por escolhas que deem um sentido ao que fazemos. Desculpe-me a Naomi Klein, marcas dão significado a nossas decisões. 


Impossível ignorar que existe, em maior ou menor grau, um Jacobina em cada um de nós. O que pode mudar é a natureza do “fardamento” que alimentará nosso projeto de felicidade como indivíduos, no seu sentido mais amplo. 


Nossa responsabilidade ética nesta profissão não nos permite escapar para nenhum dos dois extremos. Nem imaginar que marcas nunca cometam “pecados” contra seus clientes e tampouco imaginar que sem elas possamos dar um sentido às nossas escolhas.


A tensão que emerge para quem vive e pensa entre esses dois polos não chega a nos paralisar. Mas exige um compromisso de eterna vigilância. E também a clareza de que não trabalhamos para atender a volúpia do mercado, mas a sociedade acima de tudo!

Jaime Troiano

Engenheiro Químico e Sociólogo, CEO da TroianoBranding. Escreve sobre o papel estratégico das marcas para a economia e a sociedade

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