Para a população de Muniz Freire, no Sul do Espírito Santo, 2020 será inesquecível. Trata-se do ano em que o incômodo tabu, que desonrava a história local, finalmente caiu. E a ruptura ocorreu graças ao pioneirismo de Vilma Soares Louzada e Mariana Rodrigues Nogueira Farias, as primeiras mulheres vitoriosas nas eleições do município.
Para entender o tamanho da façanha, é necessário contextualizar. O município de Muniz Freire, situado na Região do Caparaó, foi emancipado em 1º de março de 1891, o que faz dele um dos mais antigos do Estado. Logo, a negativa marca havia completado incríveis 129 anos, algo inédito, pois as outras 10 cidades do Caparaó capixaba já elegeram mulheres em pleitos anteriores.
Portanto, na hora do voto, o município, conhecido pelo cognome de “Cidade Amizade”, não é nada amigável com suas mulheres, mesmo o eleitorado feminino sendo maioria. Assim, levando em consideração apenas o intervalo de 1962 a 2016, o maior período de eleições municipais sem interrupções e quando passou-se a votar também em vice-prefeito, os muniz-freirenses consagraram nas urnas 14 prefeitos, 14 vice-prefeitos e 122 vereadores, todos homens.
Enfim, na histórica eleição de 15 de novembro 2020, duas mulheres, de idades e trajetórias distintas, entraram de forma definitiva nessa relação de escolhidos na pequena localidade de 17.319 habitantes. Vilma Soares Louzada e Mariana Rodrigues Nogueira Farias, eleitas respectivamente vereadora e vice-prefeita, agora carregam juntas o simbólico “título” de primeiras mulheres a alcançarem esse êxito em Muniz Freire.
Vilma é aposentada, tem 62 anos e é descende de família tradicional na política de Muniz Freire. É bisneta de ex-prefeitos, prima e sobrinha de ex-vereadores. Da mesma maneira que os antepassados, sempre esteve presente nos bastidores da política e, no âmbito estadual, assessorou os ex-deputados José Ramos e César Colnago. Começou sua participação direta nas eleições locais em 2012, quando foi a primeira mulher a disputar, embora sem sucesso, o cargo de prefeito. Quatro anos depois, novo revés, dessa vez para o Legislativo. Já em 2020, candidatou-se a vereadora pelo PMN e recebeu 524 votos, tornando-se a mais votada entre os 93 postulantes.
Por sua vez, Mariana, do PDT, estreou nas eleições em 2020. É graduada em Medicina desde 2008 e tem 37 anos. Seu falecido pai, o médico Jaider Alves Nogueira, natural de Minas Gerais, atuou por décadas em Muniz Freire, onde chegou a concorrer ao cargo de vice-prefeito em 2012 e ficou em quarto lugar. A filha, escolhida candidata a vice-prefeita de Gesi Antônio da Silva Júnior, o “Dito”, acabou eleita na chapa pedetista com expressivos 54% dos votos.
Com a oportunidade oferecida pelo povo, ambas podem mostrar o valor da mulher também na política. Na prática, o ambiente ainda é dominado por homens e certamente trará dificuldades, porém, diante da força demonstrada na própria campanha, são grandes as chances delas superarem de novo os preconceitos e ajudarem no desenvolvimento do município.
Da parte deste colunista, orgulhosamente nascido e criado em Muniz Freire, fica a torcida para que façam um excelente trabalho e sejam inspiração para as atuais e futuras gerações.