“Se é verdade que a inflação diminuiu, por que o preço do arroz aumentou para quatro cruzeiros o quilo e o do feijão para Cr$ 5?”. A indagação, publicada em 1948 no semanário capixaba "A Época", menciona um tema desagradável para muitos brasileiros e ainda atual: a inflação.
Outros periódicos do Espírito Santo, de épocas distintas, igualmente destacam a subida dos valores. Por exemplo: no longínquo 1895, de acordo com o "Diário da Manhã", “o preço do arroz, do feijão e do milho cresceu, agigantou-se, tornou-se o pavor de todas as economias”. Já em 1953, diante da expectativa de novo acréscimo no custo do arroz e do feijão, só restou ao redator da "Folha do Povo" dizer que “o povo não aguenta mais”, uma frase, aliás, atemporal no Brasil.
Avançando no tempo, chegamos na década de 1980, período de hiperinflação, moeda desvalorizada, recessão e poder de compra corroído, o verdadeiro caos. Trauma até então superado, mas agora, em plena pandemia, preocupa novamente. E motivos não faltam: basta observar as etiquetas da indispensável dupla arroz e feijão, que assustam a cada ida ao supermercado. Para completar, produtos importantes, como óleo de soja, frutas, leite e carnes seguem aumentando e, segundo especialistas, a tendência dos próximos meses não é positiva para o consumidor.
As causas da presente alta são diversas e complexas, portanto, cobrar patriotismo dos donos de supermercados é inútil e apenas revela a incapacidade do presidente Bolsonaro de lidar com o problema. Por outro lado, solicitar a troca do arroz pelo macarrão, como disse o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, da mesma forma não resolve, porque não é só o preço do arroz que disparou. Logo, a continuar os argumentos simplórios e os absurdos diários, não causará espanto se pedirem ao povo para contentar-se com um copo de água.
A inflação de alimentos, vale frisar, afeta sobretudo os mais pobres, ou seja, é uma questão grave para milhões de famílias e precisa estar na ordem do dia de todo governo. Trata-se de adversidade que atinge o bolso e também a saúde, afinal, mesmo recorrendo a substituições, o arroz e o feijão, conforme explicado pela nutricionista Andressa Garbelotto Faccim, “fornecem nutrientes essenciais ao organismo, além de serem ricos em energia, fibras, vitaminas e minerais”.