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PCC e Comando Vermelho

Trump e terrorismo no Brasil: cada um com os seus problemas

Bem sabemos que muitos países – e os EUA mais que todos os outros – colocam e retiram aleatoriamente países e instituições de listas de “terroristas”

Publicado em 18 de Maio de 2025 às 02:00

Públicado em 

18 mai 2025 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Causa espécie a consulta feita pelo governo dos EUA, acerca de um possível caráter terrorista de algumas facções criminosas.  E tem gente dizendo que o tom não foi de pergunta, mas de afirmação. Em qualquer caso, é por isso que eu jamais poderia seguir a carreira diplomática: minha resposta não seria gentil.
Não é que PCC e CV estejam fora do conceito de organização terrorista da Constituição e da legislação do Brasil: essa possibilidade não obedece a nenhum raciocínio minimamente lógico e simplesmente ofende a soberania nacional. Aliás, ofende a inteligência dos outros, também.
Bem sabemos que muitos países – e os EUA mais que todos os outros – colocam e retiram aleatoriamente países e instituições de listas de “terroristas”. Às vezes, apenas por retórica, outras para justificar certas medidas segundo suas intencionalmente frouxas legislações internas. Num dia o sujeito é terrorista procurado com recompensa de U$ 10 milhões, no outro é recebido como chefe de Estado pelo presidente norte-americano...
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o anúncio das tarifas recíprocas para diversos países
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump Crédito: MARK SCHIEFELBEIN/AP
Isso não é da nossa conta, mas não podem querer que façamos o mesmo. Aliás, os EUA não precisam do Brasil se quiserem declarar essas facções como grupos terroristas. E estariam nos fazendo um favor quanto mais reprimissem e sancionassem todas as atividades delas no território norte americano. Acontece que, no Brasil, não há qualquer utilidade prática em seguir essa política: não é por falta de instrumentos jurídicos que temos dificuldades em vencer as facções.
O que está por trás desse descaramento é uma óbvia ingerência na maneira como enfrentamos os nossos próprios problemas de violência. A intenção também não é difícil de descobrir: fazer com que o Brasil desvie suas verbas e energias do combate ao tráfico local para cuidar da escala que a cocaína faz em nosso território antes de seguir para diferentes países e outras questões que possam estar incomodando os EUA.
Também nem tentam disfarçar que desejam espalhar por toda a América Latina o modelo salvadorenho de enfrentamento das organizações criminosas. Claro, porque as políticas de segurança pública de Nagib Bukele interessam aos EUA no curtíssimo prazo e todos os custos imediatos ficam para as “nações amigas”, assim como serão elas as únicas prejudicadas se der m* no longo prazo.
Em resumo, os EUA querem que nós resolvamos os problemas deles com o nosso dinheiro, com o nosso CPF, assumindo todos os custos financeiros, políticos e sociais, utilizando essa desculpa esfarrapada. Não que alguém discorde do quão cruéis, violentas e ignóbeis são essas facções criminosas. É claro que devemos fazer tudo ao nosso alcance para enfraquecê-las. Apenas não somos colônia norte-americana para fazermos o que só interessa a eles. Quem muito se curva mostra o que não deve.
Semana que vem vamos comentar como os yakuza estão se enfraquecendo – e como isso, inclusive, nem tem tanto a ver com o governo japonês.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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