Já que nos andamos ocupando dos moradores de rua, cabe arrematar falando um pouco do problema das drogas em si. Sabemos que é uma questão controversa com opiniões em todas as direções, mas tem um ângulo que permitiria alguma convergência e, consequentemente, providências concretamente eficazes por parte das autoridades públicas.
Se quisermos impedir completamente o uso de qualquer substância ilícita por meio da repressão criminal, já sabemos que não há consenso e que a missão é grande demais. Contudo, se olharmos os psicoativos como um problema de saúde pública, veremos que dá para fazer muito com o pouco que temos.
Não temos como fazer estatísticas precisas sobre isso, mas há estimativas bastante confiáveis e com base em pesquisa científica apontando que cerca de 10% da população adulta jovem deve ser considerada como “consumidora”. Isso equivale a 5% da população total, mas esses incluem todos os que usam substâncias ilícitas com alguma frequência.
Dependentes químicos, mesmo, seriam 1 em cada 10 usuários, isso sempre em cálculos por aproximação. Notem que isso dá mais ou menos 1 pessoa realmente “viciada” em cada 200. Contudo, esse cálculo inclui qualquer pessoa que não consegue se divertir no fim de semana sem dar um “tapa na pantera”. Nem todos são usuários severos, ou seja, aquelas pessoas que ficam na cracolândia parecendo zumbis, ou aquele que todos os dias está caído na rua, bêbado.
O uso de psicoativos, fora dos casos de prescrição médica, tende a ser sempre prejudicial à saúde física e mental, com inúmeros riscos associados, mas é preciso admitir que isso é muito pior para aquelas pessoas que consomem compulsivamente até serem nocauteadas. É claro que os malefícios para quem toma uma cerveja toda sexta-feira não serão os mesmos de quem passa o dia inteiro embriagado. E podemos nos concentrar em socorrer pelo menos estes dependentes severos.
Como é uma estimativa sobre outra estimativa, claro que não podemos apresentar um número exato, mas são bem razoáveis os cálculos por aproximação, de que só 1 em cada 5 dependentes chega aos graus mais severos de sua doença e, em consequência, sofrem o maior impacto no seu corpo, na sua mente, na sua vida em sociedade. Isso dá mais ou menos 1 pessoa a cada mil realmente “se afogando”, já nem mais conseguindo pedir socorro. É uma conta grosseira, mas dá uma visão muito clara da ordem de grandeza do problema e coincide com as estatísticas a respeito dos moradores de rua, estimados em 0,15 da população brasileira.
Sabemos que, por falta de pesquisa científica, desenvolvemos pouco as terapias para essas pessoas. Não tem um comprimido que resolve tudo. E pode ser um tanto caro, especialmente se for necessária internação, mas vale cada centavo que investirmos nisso, até porque não estaríamos tratando talvez 200 mil pacientes, mas também dando alívio ao sofrimento das famílias, trazendo alguma esperança para quem vê as drogas levarem uma pessoa amada. E, como bônus, isso permitiria eficazmente reduzir ou até acabar com as cracolândias.
Em outras palavras, olhando com um viés pragmático, nossa sociedade pode resolver 90% dos problemas associados ao consumo ilegal de psicoativos se concentrar suas atenções em 0,1% da população. E repetirei isso incansavelmente: mil pessoas sempre darão conta de apenas uma. Por mais que não tenhamos tanto tratamento disponível – em larga medida porque não pesquisamos o suficiente – sempre será possível oferecer o que temos à mão e aprender tentando.