Todo dia alguém usa o Rio de Janeiro como paradigma da violência e de crime organizado. E muitos querem culpar uma relativamente recente restrição do STF a operações policiais nas favelas. Eu ficaria apenas rindo, se esse erro não implicasse consequências tão desastrosas.
Para começo de conversa, nosso outro vizinho, a Bahia, está em um processo até mais acelerado de crescimento das facções criminosas. E as cidades de Salvador e do Rio de Janeiro têm algo muito importante em comum: ambas deixaram de ser capitais do Brasil e isso é um problemão, porque se vão embora os funcionários públicos com os salários mais altos, muitas empresas e instituições públicas e privadas, mas a população que vivia em torno dessas estruturas econômicas e políticas fica para trás. A Cidade Maravilhosa não pode ser adequadamente entendida esquecendo que ela, até poucas décadas atrás, era o Distrito Federal.
Agora, faço um quiz: desde quando o cidadão fluminense começou a eleger seus governadores, quais deles não foi preso? Não vamos entrar no mérito de serem culpados ou inocentes e se mais algum ainda irá para trás das grades. Apenas consideremos o fato objetivo de que, em um país marcado pela impunidade dos poderosos, uma sucessão de ocupantes dos mais altos cargos eletivos terem ido ver o sol nascer quadrado.
E vamos aproveitar a deixa para perguntar não quem matou (ninguém foi condenado, ainda e todos se presumem inocentes), mas quem está indiciado pelo assassinato de Marielle Franco, o que é um fato objetivo, público e notório. Sim, todos podem ser absolvidos, mas é impossível não perceber que o mau exemplo no Rio de Janeiro vem do topo e se espalha.
Está completamente iludido quem pensa que favelados com fuzil na mão são o retrato do crime organizado. São, é claro, o sintoma mais visível de um câncer que tomou conta do Rio, mas não os mais perigosos e nocivos. Se o criminoso assaltar alguém e levar um celular, faz-se uma grita danada, há uma manchete para cada roubo, mas a sociedade trata com condescendência quem leva para casa uma empresa estatal, um hospital, uma universidade. Ensinaram errado a você: quem realmente descobriu o Brasil foi Sérgio Cabral.
Subir favelas para prender (ou matar criminosos) é uma estratégia no mínimo estúpida. Após meses de trabalho de inteligência e preparação, realiza-se uma gigantesca operação envolvendo centenas de policiais para voltar, na melhor das hipóteses, com 20 ou 30 bandidos.
Esqueceram de contar para essas autoridades que se estima em 30 mil ou mais o número de integrantes do Comando Vermelho, sem falar nas outras facções. Em outras palavras, essas operações só fazem cócegas no tráfico, que continua rindo feito um condenado.
E, diga-se de passagem, as facções não foram criadas no ano passado e essa política de chutar porta de barraco, com poucos intervalos, imperou desastradamente nas últimas cinco décadas, produzindo exatamente o que era previsível: aumento do crime, fortalecimento e consolidação das organizações criminosas etc.
Antes de enxugar o banheiro, é preciso fechar o chuveiro. E, vão me desculpar, mas a violência e o crime organizado no Rio de Janeiro são como vazamento de esgoto no condomínio: fede lá embaixo, mas o culpado mora sempre no andar de cima.