Pois é, na última semana moradores de rua apareceram nas manchetes de maneira positiva, nos lembrando que se trata de pessoas, de seres humanos, nem sequer tão diferentes assim. Não, não são todos ladrões e arrombadores, embora haja alguns ali no meio. Além disso, a coluna passada recebeu alguns feedbacks que ajudam a trazer para o leitor mais algumas reflexões.
Em primeiro lugar, é preciso fazer não exatamente uma retificação, mas uma ressalva ao que dissemos no domingo passado. O fato de hoje a maioria das prefeituras ter que fazer um convencimento para que alguns moradores de rua aceitem ir para abrigos não significa que haveria vagas se todos aceitassem de uma vez só ou se alguém quisesse fazer um recolhimento compulsório. Feita essa reserva, podemos continuar dizendo que a falta de abrigos não é o problema atual, mas pode se tornar.
Outro detalhe é que, embora os programas públicos de transferência de renda tenham tirado milhões da indigência, eles não chegam a todos e, quando chegam, nem sempre solucionam tudo. Vivendo nas ruas, muitos que teriam direito a esses benefícios governamentais não conseguem recebê-los por falta de documentação, por falta de esclarecimento ou mesmo por doenças mentais etc.
Outros, por dependência química, recebem benefícios, mas os transformam em pedras de crack e continuam na miséria. Ou seja, por melhores que sejam, essas políticas nunca vão resolver 100% do problema, o que nos leva a um ponto central que sempre passa despercebido.
Estimativas oficiais indicam que as pessoas em situação de rua representam 0,15% da população brasileira. Colocado nesses termos, é fácil perceber que, embora não seja um problema simples, também não pode ser insolúvel, simplesmente porque não estamos diante de uma gigantesca epidemia, porque o tamanho do desafio é esse: pouco mais de 1.000/1. Se a sociedade brasileira decidir encarar a questão com a energia e a coesão necessárias, vai acabar encontrando os caminhos.
O parágrafo anterior, contudo, nos leva a mais uma observação importante. A maior parte da sociedade brasileira não quer estudar os motivos que realmente levam as pessoas a morar na praça e o que poderia tirá-las dessa situação. É espantoso como a sociedade pensa que é possível dar cabo de grandes desafios sem sequer os conhecer. Cada um elabora a sua solução milagrosa e universal, que geralmente consiste apenas em espantar a vizinhança incômoda para o quintal dos outros.
Sim, muitos exigem o método da vassourinha: não decida a dificuldade, apenas varra para baixo do tapete ou, de preferência, para outra vizinhança. Atender a essas pessoas não é apenas desumano com os moradores de rua, é gastar dinheiro público não para melhorar a situação, mas para transferir esses indesejados de um lado para o outro. Que incomodem em outra vizinhança.
Seria como combater a dengue simplesmente espantando os mosquitos, sem reduzir o número deles. Um grande desperdício de dinheiro, mas também de tempo. Já podíamos ter pelo menos diminuído mais um bocado o número dos sem-teto e dos dependentes químicos nas cracolândias se a sociedade tivesse esse sincero desejo em vez de cada um apenas pressionar para limpar o próprio quintal.