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Segurança pública

Tráfico de drogas: uma atividade econômica como qualquer outra, só que ilícita

Traficantes, é óbvio, não concorrem mediante propagandas na televisão. Eles tomam o mercado uns dos outros à bala. Os primeiros alvos serão os mercados maiores e mais lucrativos, mas depois esse movimento vai chegando aos mais periféricos

Públicado em 

07 mai 2023 às 00:10
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

É bastante doloroso, mas é preciso reconhecer que o tráfico de drogas funciona como um setor paralelo da atividade econômica mundial. Um setor muito eficiente, diga-se de passagem. Na verdade, a primeira vez que as drogas geraram um conflito entre seres humanos foi na direção oposta: durante as duas Guerras do Ópio, a Inglaterra forçou, a tiros de canhão, que a China permitisse aceitasse a venda desse narcótico pelos comerciantes ingleses. Não podemos esquecer desse detalhe ao tratarmos do tema e enfrentarmos o problema.
Uma das constatações é a de que, com exceção de algumas tribos isoladas, que recebem estranhos a flechadas, o comércio de substâncias psicoativas ilícitas já dominou completamente todas as comunidades humanas. Não há mais barreiras geográficas. Ninguém mais deixa de consumi-las por falta de um fornecedor. Isso implica um mercado totalmente maduro, em que não é possível aumentar as minhas vendas sem tirar clientes do meu concorrente.
Traficantes, é óbvio, não concorrem mediante propagandas na televisão. Eles tomam o mercado uns dos outros à bala. Naturalmente, os primeiros alvos serão os mercados maiores e mais lucrativos, mas depois esse movimento irá chegando aos mais periféricos.
Some-se a isso uma tendência natural desse setor à concentração. Mesmo a maconha tem sido importada, embora tecnicamente pudesse ser produzida com facilidade no Brasil. Desenvolver uma rede de fornecedores e de logística não é para “microempresários”. Além disso, nesse mercado, tamanho é documento: uma quadrilha maior, apenas por esse fato, se torna mais forte “militarmente” e mais capaz de dominar ou incorporar a outra à força.
Embora as facções tenham mais interesse no comércio atacadista das drogas, os varejistas locais não têm escolha senão se integrarem de alguma maneira, virando verdadeiras “franquias” do PCC e outras facções. Ou serão sumariamente expulsos e/ou executados.
Operação Estado Presente em Terra Vermelha
Operação Estado Presente em Terra Vermelha Crédito: Sesp
Os pequenos traficantes frequentemente são “crias” da região em que atuam. Especialmente em pequenas cidades do interior, isso pode significar que seus avós já moravam na região e que ele conhece e é conhecido por todos. É muito mais difícil para ele adotar comportamentos agressivos, cometer crimes violentos etc. Isso serviu para que, no passado, houvesse menos violência ligada ao tráfico em cidades pequenas e bairros de ocupação antiga, ainda que de baixa renda. Isso está acabando. Não apenas as drogas, mas também a violência associada a ela chegarão a todos os rincões.
Existe, por fim, um elemento enganosamente positivo: homicídios são ruins para os negócios e tenderiam a ser evitados. Ocorre, em primeiro lugar, que os traficantes são, quase na totalidade, jovens e mesmo adolescentes, com toda a imaturidade, impulsividade e necessidade de demonstrar força e “masculinidade” associadas a essa fase do desenvolvimento psicológico.
Em segundo lugar, uma paz vergonhosa alcançada por acordo entre facções não é exatamente o que deseja a sociedade; tréguas entre criminosos são curtas e instáveis e, de qualquer maneira, não devem ser consideradas uma vitória da segurança pública, ao contrário, visto que constituem momentos de fortalecimento das facções.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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