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Crime

Ônibus incendiados no RJ: mesmo com bandidos fora de circulação, milícia só cresce

Organizações criminosas não se ressentem da neutralização de alguns de seus integrantes. Mesmo que se consiga fragilizar completamente uma delas, simplesmente seu território será dominado por outra concorrente

Públicado em 

29 out 2023 às 00:30
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Estes dias está difícil escolher o tema. Juiz assassinado e criminosos presos alegando que foi latrocínio? Mais um atentado em escola? Os médicos assassinados por engano? Ônibus queimados no Rio de Janeiro como fato subsequente? O pior de tudo foi mesmo a coletiva do governador do RJ.
Não sei se podemos dizer que foi J. Edgar Hoover (1895-1972), o fundador e eterno diretor do FBI, quem inventou a política do “Inimigo Público n.º 1”, mas ele a utilizou de maneira sistemática e hábil na propaganda do que começou como uma minúscula repartição pública, cujos membros sequer podiam portar armas. Consiste basicamente em eleger algum criminoso como o mais procurado, satanizá-lo nos meios de comunicação e depois concentrar esforços em sua captura.
Mais cedo ou mais tarde ele é preso ou morto e as autoridades podem declarar vitória sobre o crime. Como esse indivíduo, por pior que fosse, não era o responsável por todas as maldades do país, a violência continua e logo é necessário eleger outro alvo e assim sucessivamente, de maneira que os governantes podem dizer que são capazes de resolver o problema, mas sempre surgem novos malfeitores, então esse é um trabalho que, embora “muito bem-sucedido”, não pode parar nunca.
Vamos começar nossa história com uma milícia denominada “Liga da Justiça”. Após uma CPI da Alerj, seus principais integrantes foram todos presos ou mortos, mas logo foram substituídos por “Carlinhos Três Pontes”, que a rebatizou de “A Firma”. Morto, é sucedido por seu irmão “Ecko”, que expandiu os negócios e outra vez trocou o nome para “Bonde do Ecko”, que seria proprietária de 400 fuzis. Mas este também foi morto pela polícia e a milícia se partiu em duas, uma comandada por seu braço direito “Tandera” e outra, por seu irmão “Zinho”.
A morte de “Faustão”, sobrinho de “Zinho” é que desencadeou a queima de ônibus no Rio, recentemente. Como se vê, bandidos são tirados de circulação, a milícia mudou de nome, mas só cresceu de tamanho, e, no entanto, o governador do RJ acha realmente que vai resolver o problema encomendando a prisão do “Zinho” e mais alguns.
Como já cansamos de dizer aqui, organizações criminosas não se ressentem da neutralização de alguns de seus integrantes. Aliás, mesmo que se consiga fragilizar completamente uma delas, simplesmente seu território será dominado por outra concorrente. Além de se mostrar completamente perdido, sem qualquer ideia de como gerenciar a segurança pública carioca e preocupado apenas em salvar sua imagem, o supremo mandatário estadual pede ajuda ao governo federal, que também já mostrou não ter a menor embocadura para lidar com problemas de polícia e não está nem um pouco disposto a sequer cumprir suas atribuições constitucionais na área.
Na verdade, depois de tantos governadores presos, o Rio de Janeiro já mostrou que a corrupção por lá é endêmica e crônica, vem de cima para baixo e já não se sabe com quem é possível contar, em quem confiar. Então não é muito realista achar que as instituições locais vão dar conta.
O Espírito Santo venceu desafio parecido nos últimos 20 anos, mas as circunstâncias eram outras. Não parece haver outra solução que não uma intervenção federal completa e muito longa, em vez daquela “interferência branca”, que atingia apenas o comando da segurança pública e já foi tentada no passado, mas duvido que o governo federal tenha apetite para isso.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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