A reforma da Matriz de São Sebastião, em Jucutuquara, Vitória, está causando insatisfação entre moradores da região e frequentadores da igreja a ponto de uma denúncia ser registrada junto ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES) na tentativa de paralisar as obras. Um grupo de fiéis afirma que as intervenções estão descaracterizando aspectos culturais e históricos, com a retirada de elementos arquitetônicos que marcaram a construção do início do século XX.
Fundada em 1927, a igreja está prestes a se tornar centenária e, entre as mudanças criticadas pela comunidade, está a remoção de anjos e santos que compunham a arquitetura da matriz.
"Os anjos formavam os pedestais para as imagens que ficavam ali. Não sei se as imagens chegam a ser centenárias, mas estão perto de ser porque foram colocadas ao longo da construção. Tem uma história ali contada", ressalta Angela Faria, atuante na comunidade há 26 anos e uma das integrantes da comissão de preservação da matriz.
Catequista, Angela afirma que a comunidade não foi consultada sobre as intervenções que seriam realizadas e o projeto foi apenas apresentado quando já estavam definidas as mudanças que seriam executadas.
"Independentemente do fato de as imagens serem antigas, estarem 'fora de moda', ao que parece, elas contam uma história da comunidade, de identidade. Quem formou essa igreja, as famílias que fizeram as doações tinham suas devoções. E isso não foi respeitado", acrescenta.
Angela lembra que a mãe se casou na matriz há 61 anos e, nos registros da época, já apareciam as imagens agora retiradas.
"Os anjos eram chumbados na parede, fazendo parte da arquitetura original. Foram arrancados e jogados na caçamba de lixo. Disseram que foi um erro de quem estava executando, mas será que não tem ninguém para fiscalizar essa obra? Isso fere a fé das pessoas. Não se joga um símbolo da nossa fé desse jeito. As imagens foram consagradas junto à igreja. Para mim, foi uma violência", lamenta.
Outra integrante da comissão, Andréa Miguel diz que as intervenções têm sido feitas a pretexto da reforma litúrgica, um documento do Vaticano que orienta várias práticas na Igreja Católica, mas sobre o qual houve uma interpretação equivocada.
"A reforma litúrgica não discute esse ponto. Toda igreja já construída deve preservar a memória histórica e cultural. O novo conceito (de menos imagens) se aplica para a construção de novas igrejas", sustenta.
Juliana Varejão lamenta que a igreja ainda não fosse tombada pelo patrimônio histórico, a não ser a fachada. "Havia um processo em andamento para a parte interna, mas foi interrompido com a obra", conta ela, também participante da comissão de preservação da matriz.
As três reconhecem que a igreja precisava de restauração, particularmente por problemas estruturais no telhado, mas a indignação passa pela forma como o projeto está sendo conduzido, segundo elas, sem respeito à história da comunidade.
Ministério Público investiga