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Quase 100 anos

Fiéis recorrem ao MPES para paralisar reforma de igreja histórica em Jucutuquara

Integrantes da comunidade religiosa e do bairro querem a suspensão das obras por descaracterização de elementos históricos e culturais da Matriz de São Sebastião

Publicado em 22 de Maio de 2026 às 20:23

Aline Nunes

Publicado em 

22 mai 2026 às 20:23
Reforma da Matriz de São Sebastião, em Jucutuquara, retirou elementos que faziam parte da arquitetura da igreja
Reforma da Matriz de São Sebastião, em Jucutuquara, retirou elementos que faziam parte da arquitetura da igreja Acervo pessoal

A reforma da Matriz de São Sebastião, em Jucutuquara, Vitória, está causando insatisfação entre moradores da região e frequentadores da igreja a ponto de uma denúncia ser registrada junto ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES) na tentativa de paralisar as obras. Um grupo de fiéis afirma que as intervenções estão descaracterizando aspectos culturais e históricos, com a retirada de elementos arquitetônicos que marcaram a construção do início do século XX.


Fundada em 1927, a igreja está prestes a se tornar centenária e, entre as mudanças criticadas pela comunidade, está a remoção de anjos e santos que compunham a arquitetura da matriz.


"Os anjos formavam os pedestais para as imagens que ficavam ali. Não sei se as imagens chegam a ser centenárias, mas estão perto de ser porque foram colocadas ao longo da construção. Tem uma história ali contada", ressalta Angela Faria, atuante na comunidade há 26 anos e uma das integrantes da comissão de preservação da matriz. 


Catequista, Angela afirma que a comunidade não foi consultada sobre as intervenções que seriam realizadas e o projeto foi apenas apresentado quando já estavam definidas as mudanças que seriam executadas. 


"Independentemente do fato de as imagens serem antigas, estarem 'fora de moda', ao que parece, elas contam uma história da comunidade, de identidade. Quem formou essa igreja, as famílias que fizeram as doações tinham suas devoções. E isso não foi respeitado", acrescenta.


Angela lembra que a mãe se casou na matriz há 61 anos e, nos registros da época, já apareciam as imagens agora retiradas. 


"Os anjos eram chumbados na parede, fazendo parte da arquitetura original. Foram arrancados e jogados na caçamba de lixo. Disseram que foi um erro de quem estava executando, mas será que não tem ninguém para fiscalizar essa obra? Isso fere a fé das pessoas. Não se joga um símbolo da nossa fé desse jeito. As imagens foram consagradas junto à igreja. Para mim, foi uma violência", lamenta. 

Matriz de São Sebastião: os anjos que serviam de pedestal para santos, como registrado num casamento em 1965 e mais recentemente, foram removidos e jogados no lixo
Os anjos que serviam de pedestal para santos, como registrado num casamento em 1965 e mais recentemente, foram removidos e jogados no lixo Acervo pessoal

Outra integrante da comissão, Andréa Miguel diz que as intervenções têm sido feitas a pretexto da reforma litúrgica, um documento do Vaticano que orienta várias práticas na Igreja Católica, mas sobre o qual houve uma interpretação equivocada. 


"A reforma litúrgica não discute esse ponto. Toda igreja já construída deve preservar a memória histórica e cultural. O novo conceito (de menos imagens) se aplica para a construção de novas igrejas", sustenta. 


Juliana Varejão lamenta que a igreja ainda não fosse tombada pelo patrimônio histórico, a não ser a fachada. "Havia um processo em andamento para a parte interna, mas foi interrompido com a obra", conta ela, também participante da comissão de preservação da matriz. 


As três reconhecem que a igreja precisava de restauração, particularmente por problemas estruturais no telhado, mas a indignação passa pela forma como o projeto está sendo conduzido, segundo elas, sem respeito à história da comunidade.

Ministério Público investiga

A Promotoria de Justiça Cível de Vitória informou que recebeu, por meio da Ouvidoria do MPES, manifestação relacionada às intervenções na Matriz São Sebastião, com possível impacto ao patrimônio histórico e cultural do templo.

"Diante dos fatos apresentados, foi instaurada notícia de fato para apuração do caso. No âmbito do procedimento, foi expedido ofício à Prefeitura Municipal de Vitória solicitando informações e esclarecimentos acerca das intervenções realizadas no imóvel, ainda dentro do prazo para resposta", diz o Ministério Público, em nota.

Procurada pela reportagem de A Gazeta, a Secretaria de Desenvolvimento da Cidade e Habitação (Sedec) esclarece que a obra de reforma é realizada pela Mitra Arquidiocesana de Vitória, proprietária do imóvel. Nesse caso, a atuação da Prefeitura de Vitória ocorre por meio do licenciamento e da fiscalização urbanística da intervenção. O imóvel é identificado como de interesse de preservação.

Ainda segundo a Sedec, a obra está liceciada, com alvará de autorização válido até 1º de julho, e a intervenção tem acompanhamento de responsável técnico habilitado junto ao Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES).

"A Sedec esclarece ainda que equipes de fiscalização do município realizam vistorias periódicas para acompanhamento da execução da obra. Na tarde desta quinta-feira (21), fiscais estiveram novamente no local e constataram que os serviços seguem dentro da regularidade prevista no licenciamento emitido pelo município."

Também procurada para tratar do assunto, a Arquidiocese de Vitória diz que recebeu integrantes da comissão, mas, no momento, não vai se manifestar sobre a reforma. 
O crucifixo, neste casamento antes da reforma, também foi retirado na Matriz de São Sebastião, em Jucutuquara
O crucifixo, neste casamento antes da reforma, também foi retirado na Matriz de São Sebastião, em Jucutuquara Acervo pessoal

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