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Segurança pública

Não é verdade que traficantes levam uma vida boa

Na verdade, a escolha de entrar em uma vida criminosa não tem nada de racional e muito menos de inteligente. Não por acaso, são quase todos adolescentes quando dão esse passo. E depois fica difícil sair, mesmo que se queira

Públicado em 

13 ago 2023 às 00:10
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Momento em que Marcela se apresentou ao DML para fazer exames
Momento em que Marcela se apresentou ao DML para fazer exames Crédito: Rodrigo Gomes
Muita gente deve ter estranhado a notícia de que uma mulher com mandados de prisão em aberto no Estado resolveu se entregar. Talvez a população acredite que traficantes têm muito dinheiro e levam uma “vida boa” danada, mas não é verdade.
Qualidade de vida, nenhum deles tem: quando não estão propriamente na cadeia, permanecem confinados em pequenos espaços urbanos de onde não podem sair sob pena de correrem muito risco. De uma forma ou de outra, é como se estivessem presos o tempo inteiro, não existe tranquilidade nem para dar um pulo na praia.
Isso lembrando que, mesmo nas suas bocas de fumo, passam o tempo todo sob estresse e ameaça real, não apenas de a polícia prendê-los, mas também de criminosos concorrentes invadirem o seu ponto comercial ou roubarem a droga deles, traições dentro da própria quadrilha e até clientes agressivos. Estão sempre “devendo” a fornecedores, e estes não usam o SPC.
E é uma minoria irrelevante que realmente consegue ganhar algum dinheiro, e, mesmo assim, geralmente por pouco tempo, antes de ser morto ou preso. A esmagadora maioria recebe mais ou menos o dobro do salário mínimo, mas obviamente não tem isso de “carteira assinada”. Descontando o acesso quase gratuito a drogas para consumirem junto com amigos e namoradas, não há muitos “benefícios” e, basicamente, não ganham o suficiente para sair da pobreza em suas curtas vidas.
Stephen Dubner constatou que, ao menos nos EUA, muitos traficantes não conseguem sair da casa dos pais e ainda fazem jornada dupla em empregos normais de baixa qualificação, para complementar a renda.
Talvez seja até menos “compensador” ainda ser assaltante. Na verdade, a escolha de entrar em uma vida criminosa não tem nada de racional e muito menos de inteligente. Não por acaso, são quase todos adolescentes quando dão esse passo. E depois fica difícil sair, mesmo que se queira.
Há três detalhes que precisam ser sublinhados. O primeiro deles é que não se trata apenas de senso comum: já está bem estabelecida cientificamente a correlação entre evasão escolar e envolvimento criminal, embora não esteja perfeitamente claro o que é causa ou efeito.
O segundo é que também está bem determinado que essa aproximação ao crime se concentra na virada do ensino fundamental 1 para o fundamental 2. O terceiro é que, ainda no fundamental 1, esses alunos emitem muitos sinais precoces na forma de ocorrências disciplinares.
Enfim, é muito mais fácil evitar que nossas crianças e adolescentes saiam de uma trajetória saudável que emendar adultos depois, mesmo que estes estejam arrependidos de suas escolhas anteriores. No mínimo, tem sempre uma “cana pesada” esperando por eles antes que possam voltar a uma vida normal.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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