Tendo em vista um substancial aumento nos homicídios em Vila Velha, as pessoas podem se perguntar que falhas poderiam ter sido cometidas pelas autoridades responsáveis pela segurança pública local. A resposta, como sempre, parece um contrassenso: provavelmente nenhuma.
Ao contrário da gestão prisional, em que um pequeno deslize pode ter graves consequências imediatas, ao passo que grandes erros só aparecem ao longo do tempo, no mundo aqui fora não funciona assim. Um bom trabalho das polícias produz pequenas reduções na violência; o importante é que se mantenha por tempo suficiente. O inverso também é verdade: qualquer salto (ou redução drástica) nos números quase sempre será explicado por um destes caminhos: de um lado, erro, manipulação ou modificações nos critérios estatísticos; de outro, fatores externos atípicos, como a deflagração (ou o término) de uma guerra entra quadrilhas. Este último parece ser o caso de Vila Velha e há uma explicação muito simples para isso.
O sistema carcerário, um lugar onde mal poderiam ser empilhados 14 mil presos, concentra 22 mil pessoas selecionadas por sua periculosidade e que não têm mais nada para fazer além de conversar entre si e pensar em fugir. Tudo o que acontece em um ponto é imediatamente conhecido por toda essa população encarcerada. O número de policiais penitenciários de plantão é absolutamente desproporcional à quantidade de internos e muitos nem sequer podem portar munição não letal. Ao menor vacilo, um funcionário ou visitante pode ser feito refém e em segundos toda a cadeia “vira”.
Da mesma forma, qualquer ato de indisciplina, se não for enérgica e imediatamente suprimido, transforma-se em motim. No médio e longo prazos, o problema é outro: a cada dia se abre mão de um procedimento de segurança, afrouxa-se um pouco a disciplina, para agradar aos presos e mantê-los quietos por um tempo; essas concessões são aumentadas progressivamente, até que os criminosos mais perigosos simplesmente assumem o controle do presídio, como vimos em um passado não tão distante.
Nas ruas, ao contrário, os criminosos estão espalhados e não se comunicam nem de longe com a mesma frequência que ocorre quando presos. Leva bastante tempo para que eles percebam estar havendo, ou não, a apuração e punição de um determinado crime. Leis mais severas são absolutamente irrelevantes, porque o raciocínio do infrator é apenas um: qual a probabilidade de eu ser preso e, se isto acontecer, de um advogado conseguir a minha liberdade?
O tamanho da pena não importa para quem sequer pretende viver além dos 25 anos. Portanto, para o bem e para o mal, não há maneira de as polícias interferirem de maneira imediatamente perceptível nas estatísticas. Os resultados são sempre a conta-gotas. Quando há um repique nos homicídios, se não andaram mexendo nas estatísticas – e não há motivo para acreditar nesta hipótese –, é quase certo que os traficantes estejam tendo a sua Ucrânia local e particular.
Felizmente, as polícias não são a ONU: elas realmente podem fazer algo a respeito, embora não em um passe de mágica. Concentrar inteligência, patrulhamento e investigação na região que saiu da curva pode esfriar os ânimos e mostrar que a guerra não é boa para ninguém.