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Corpo de Bombeiros não pode ser lembrado somente durante as tragédias

Catástrofe de Petrópolis nos lembra que não dá para improvisar pessoal, treinamento e equipamento só depois que o céu desabou sobre nossas cabeças

Publicado em 20 de Fevereiro de 2022 às 02:00

Públicado em 

20 fev 2022 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff
Corpos começaram a ser recolhidos após baixa do nível do rio no Centro de Petrópolis
Corpos começaram a ser recolhidos após baixa do nível do rio no Centro de Petrópolis Crédito: Reprodução/Redes Sociais
Já andei falando disso aqui, mas tem assunto que parece nunca ser demais repetir. Ou melhor: as tragédias é que logo são esquecidas e por isso se repetem, então é preciso retomar a advertência: não devíamos nos lembrar do Corpo de Bombeiros só quando somos atingidos por acidentes ou desastres naturais.
É claro que eles sempre farão o máximo para salvar vidas e reduzir os estragos de incêndios, desabamentos, cheias, deslizamentos etc., mas isso sofrerá as limitações que lhes forem impostas em períodos de tranquilidade. Não dá para improvisar pessoal, treinamento e equipamento só depois que o céu desabou sobre nossas cabeças.
Outro ponto é que a função mais importante da Defesa Civil é realizada antes das tragédias. Bombeiros não trabalham apenas apagando incêndios. Eles analisam as plantas de futuras construções, para ver se elas contemplam planos de evacuação emergencial; fiscalizam os prédios já existentes; avaliam encostas e outras áreas de risco; estão sempre atentos à previsão meteorológica etc. Embora não sejam muito notados nesse momento, é quando o pior pode ser evitado por meio da prevenção.
Por exemplo, quase tudo na tragédia que atingiu Petrópolis/RJ era bastante anunciado, para não dizer que talvez já estivesse apontado em algum documento oficial. Por exemplo, não são autorizadas construções em áreas perigosas que, por isso mesmo, acabam sendo invadidas por pessoas carentes, com habitações irregulares e improvisadas. Também não basta soar sirenes, é necessário esclarecer a população sobre como proceder e, claro, ter locais seguros identificados para onde encaminhá-la.
Infelizmente, logo que o sol volta a brilhar, os eleitores esquecem tudo o que estamos assistindo; pouco ou nada cobram de seus governantes. Estes, por sua vez, nem sempre têm a sensibilidade de cuidar de quem cuida de nós, de prover aos bombeiros toda a estrutura necessária. E quase ninguém quer atender às recomendações, às vezes impopulares, de não ocupar áreas excessivamente instáveis.
Por que morre tanta gente em erupções vulcânicas, se o perigo está tão à vista? Simples: porque o solo em torno geralmente é muito fértil. Não há lugar melhor para morar que à sombra de um vulcão. Até o dia que não. Bombeiros podem não parecer indispensáveis, nem suas advertências, tão importantes, nos dias ensolarados. Até quando pouco mais resta a fazer além de calcular prejuízos econômicos, socorrer desabrigados, resgatar corpos e um ou outro sobrevivente sortudo.

Henrique Herkenhoff

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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