Com a indicação de Eugênio Ricas como novo secretário e o anúncio de que não deve haver trocas na chefia das forças policiais, parece que a dança das cadeiras no alto comando das instituições de segurança pública terminou e agora as coisas caminham para um processo de amoldamento entre antigas e novas autoridades.
Já falamos aqui do legado do Coronel Ramalho, mas isso não esgota o assunto quando se trata dos desafios que Ricas tem pela frente. Afinal, se ambos ostentam um longo histórico de serviço público bem prestado à sociedade, têm personalidades e origens bem diferentes. Aliás, conter qualquer ímpeto reformista já é um dos primeiros reptos colocados para o, brevemente, novo Sesp.
De fato, o governador deixou bem claro que não quer colocar em risco anos de lenta, mas sustentável redução nos homicídios, que ele mantém desde o seu primeiro mandato. Algum solavanco aqui e ali pode ser inevitável, mas ele – e cada cidadão capixaba – quer ter certeza de que a tendência baixista seja mantida no longo prazo.
Na verdade, se souber mexer as pedrinhas, se tirar a faca da caveira e a meter no queijo, Ricas tem tudo para acelerar esse processo de queda da violência e colocar o ES na outra ponta do ranking brasileiro. Afinal de contas, conseguimos todos esses avanços mesmo apurando apenas 40% dos homicídios.
Outro ponto que já colocamos aqui é o surgimento de nossa primeira facção criminosa, além das incursões de aparelhos de outros estados. Não é um problema de fácil solução, mas as probabilidades de sucesso são bem maiores se houver uma única, coerente e bem desenhada estratégia por trás de cada medida de enfrentamento da baixa criminalidade organizada, em vez de doses gigantescas de operacionalidade pura e sem sequer uma linha condutora, como quando, no último minuto da decisão do campeonato, até o goleiro vai para a área adversária tentar o empate, tudo resumido em três palavras: “Pra cima deles”.
Entretanto – e pouco se tem falado disso – Ricas tem larga experiência no combate às organizações criminosas de alto nível, ao criminoso de colarinho branco, que ocupa altas posições públicas e privadas, em contraste com aqueles que andam pelas favelas com um fuzil, mas de chinelos. De fato, o combate à corrupção no ES está perigosamente acomodado. Na verdade, tivemos um grave retrocesso com a extinção do Nuroc.
Note-se que esses pontos se colocam diante do experiente delegado de Polícia Federal com um ingrediente a mais, que representa um desafio em si mesmo: não complicar a vida de seu amigo pessoal, colega de profissão e de secretariado, Rafael Pacheco. Reduzir a criminalidade fazendo prisões arbitrárias por atacado pode trazer bons resultados no curto prazo, mas cria um problema novo e maior para administrar, a super-superpopulação carcerária.
Bem, Ricas não é novato nem nas forças policiais nem na gestão pública ou na política. Nem bobo. Já provou capacidade administrativa como secretário de Justiça, tem credenciais impecáveis e excelentes relações profissionais, além de amigos particulares que fez para todo lado. Tem muita, mas muita esperança mesmo depositada nele.