Como dissemos na semana passada, as torcidas organizadas dos dois lados estão fazendo uma grita danada a favor e contra a decisão do STF que estabeleceu a quantidade de maconha como critério objetivo para distinguir o consumidor do microtraficante. Reação passional, mesmo, porque já se sabe que o tráfico não foi legalizado e que a medida deve, inclusive, ter algum efeito positivo no seu combate.
Para se ter uma ideia do pequeno impacto dessa decisão, o pessoal que entende de matemática está estimando uma redução em torno de 5% da população carcerária no longo prazo, sendo que ela incidirá exclusivamente sobre os “vapores”, ou seja, aquele aprendiz descartável de criminoso, cuja prisão é irrelevante. Ou seja, não “liberou geral”, nem nada parecido.
Enquanto isso, sem muito alarde, a PMES está elaborando propostas racionais para a segurança pública, fugindo do lugar comum do “tiro, bomba e porrada”. Isto, sim, deveria estar ganhando destaque na imprensa e nos debates de quem está interessado no problema da violência, mas parece que fazer o mais importante não gera polêmica e, portanto, não cai no gosto dos internautas, ou, pelo menos, dos que só querem emitir opiniões radicais, imediatistas e sem meditação. Quase ninguém discorda da ineficácia da repressão sem olhar o social, mas, exatamente porque é óbvio, parece que perde o interesse quando já se está começando a disputa pela atenção do eleitor.
O que está sendo estudado na PMES não abrange todas as possibilidades – nem se propõe a isso –, mas representa grandes avanços. Claro que também não será uma varinha mágica, mas tem muitas vantagens. A primeira delas é o “risco zero”: pode dar muito certo ou meio certo, mas não existe a mais remota possibilidade de dar errado. Além disso, as medidas em debate não teriam efeito prático somente na segurança pública, ajudando a resolver outros problemas da nossa sociedade, ou seja, teriam efeitos colaterais extremamente desejáveis.
Trata-se da prevenção primária ou, melhor dizendo, das únicas políticas de enfrentamento à violência que merecem ser chamadas de prevenção, pois não têm nenhum cunho repressor. E aí, claro, não agrada muito o pessoal sedento de vingança, o pessoal que acha que bandido bom é bandido morto. Ora, encaminhar nossa juventude para os estudos e para o trabalho, oferecer alternativas de emprego e renda, lazer e cultura, melhorar a urbanização das nossas cidades, tudo isso não parece muito melhor do que gastar dinheiro vigiando presos?
Precisamos de mais manchetes como "Sem fuzil ou caveirão: o plano da PM para reduzir a violência no ES", coluna de Vilmara Fernandes publicada no último dia 2, e mais atenção da população para os debates que realmente podem trazer soluções concretas e eficientes, para que o suado dinheiro público, que vem do bolso de cada um de nós, seja bem gasto. Chega de medidas populistas, chega de autoridades públicas jogando para a torcida. E os nossos parabéns para a iniciativa da PMES. Seu serviço de inteligência pode contribuir muito para o aprofundamento da proposta e para colocar os planos em prática.