Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

EUA x Brasil

A polícia não está fora do racismo, mas não é o gatilho da discriminação

No Brasil, as forças policiais são formadas predominantemente por afrodescendentes, o que não exclui automaticamente a possibilidade de discriminação, mas não é terreno fértil

Publicado em 07 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

07 jun 2020 às 05:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff
Policiamento reforçado no Bairro da Penha, em Vitória
Policiamento reforçado no Bairro da Penha, em Vitória Crédito: Fernando Madeira
A morte do norte-americano afrodescendente George Floyd acendeu uma revolta popular que se espalhou pelos EUA como fogo na relva seca, encontrando as mais diversas reações. O próprio irmão da vítima pediu que nenhum protesto fosse violento e, por outro lado, muitos policiais, em vez de reprimir as manifestações, chegaram a se juntar a elas. Há muito se discute se temos problema semelhante no Brasil: seriam as nossas forças policiais e o processo judiciário discriminatório?
Os contextos evidentemente não são iguais. Os EUA tiveram a libertação dos escravos marcada por uma sangrenta guerra civil cujas feridas ainda não estão completamente cicatrizadas, enquanto que, no Brasil, embora fossem poucos os militantes da causa abolicionista, a escravidão nunca tenha contado com apoio popular, e a família imperial só tivesse servidores livres: a resistência era dos poucos, mas poderosos, senhores de engenho; tudo se resolveu com a pacata deposição de D. Pedro II, que inclusive recusou a oferta de uma pensão do governo republicano.
Embora cá, como lá, não tenha havido políticas de integração e oferta de oportunidades igualitárias, nunca tivemos leis de segregação racial. E, talvez mais que tudo, no Brasil, desde o início a relação entre brancos e negros sempre foi marcada pela miscigenação – no começo quase sempre forçada, é verdade – que não favorece a discriminação, ainda que nossa democracia racial seja bastante contestada.
Nos EUA, existe uma permanente tensão entre as forças policiais, predominantemente formadas por brancos, frequentemente de origem irlandesas, e os negros. A hostilidade é recíproca, razão desses incidentes relativamente frequentes e que sempre desembocam em protestos bastante virulentos, também. Já no Brasil, as forças policiais são formadas predominantemente por afrodescendentes, o que não exclui automaticamente a possibilidade de discriminação, mas não é terreno fértil.
Em uma obra cuidadosa e detalhada, Silvia Ramos e Leonarda Musumeci expõem dados preciosos sobre a PM/RJ que, acreditamos, pode, com algum cuidado, ser tomada como paradigma médio. Só não podemos concordar com a conclusão das autoras: os dados que elas trazem mostram claramente que a PM carioca não é mais – nem menos – racista do que a sociedade em geral. A isto se acrescente que a PM capixaba vem sistematicamente realizando treinamentos para desfazer os preconceitos que seus integrantes trazem de sua própria história de vida.
Se existe uma atuação “seletiva” atingindo mais intensamente a população afrodescendente, isso se deve a uma escolha da sociedade de priorizar a repressão ao microtráfico para consumo imediato e, em segundo lugar, ao furto e ao roubo. Quando direcionada às ações de trânsito, por exemplo, a PM-RJ claramente acorda mais pessoas brancas. E, claro, ninguém vai surpreender um corrupto por meio de patrulhamento preventivo. O racismo, então, está difuso na sociedade em geral, e as polícias apenas não estão fora desse processo, mas não são a locomotiva da discriminação no Brasil.

Henrique Herkenhoff

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Vereador de Vitória Baiano do Salão
Vereador de Vitória condenado por estupro está com tornozeleira eletrônica
Ocorrência gerou confusão no Calçadão Geraldo Pereira, no Centro.
Mulher suspeita de tentar sequestrar menina é contida por populares em Colatina
Imagem de destaque
A crise na Ucrânia que fez Zelensky demitir ministro da Defesa e comandante do Exército em plena guerra com a Rússia

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados