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Violência

A loira do banheiro, o homem do saco e as lendas urbanas da segurança pública

Achar que o Rio de Janeiro chegou ao ponto em que está por causa de uma restrição do STF às operações policiais é ignorar décadas de uma eterna “crise” na segurança pública dos nossos vizinhos

Publicado em 30 de Março de 2025 às 02:00

Públicado em 

30 mar 2025 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Pois é: o crime organizado é, em si mesmo um enorme desafio para as autoridades de segurança pública; a repressão ao tráfico de drogas, outro problema para o qual ninguém tem uma solução óbvia, fácil, rápida ou barata. Livrar-se dois ao mesmo tempo, então, nem se fala. Se fosse simples, já tinha sido feito.
Ambos têm essa característica de tornar quase inúteis as prisões dos criminosos, que são imediatamente substituídos sem que a atividade ilegal precise parar por um instante sequer. A consequência é que alcançar objetivos operacionais raramente dá qualquer resultado concreto a nível tático e muito menos estratégico: neutralizar um traficante não afeta o tráfico em si e nenhum usuário fica sem disponibilidade da sua substância predileta, mesmo que apenas por alguns dias. Contudo, se ninguém sabe a resposta, já temos experiência prática suficiente para saber o que dá errado e até piora as coisas.
Vamos relembrar nossa coluna de 9 de julho de 2023, ou seja, quase dois anos atrás, quando registramos que os confrontos entre policiais e criminosos haviam subido de 24 em 2018 para 150 em 2020, sendo que, naquela data, os números divulgados pelo Secretário de Segurança permitiam uma projeção de 500 enfrentamentos até o final daquele ano.
Note-se que a quantidade total de óbitos nessas escaramuças também subiu, mas em um ritmo muito menor, saltando de 19 em 2017 para 73 óbitos em 2024: seria muito interessante fazer uma longa série histórica dessa estatística, mas já dá para perceber que os policiais capixabas estão mostrando profissionalismo e mantendo a letalidade proporcionalmente sob controle.
Na coluna do domingo seguinte prosseguimos analisando essa questão: a estratégia de maximizar o atrito deu errado com as facções do RJ e foi pior ainda no Afeganistão.
Em outro domingo qualquer, apontamos como as forças armadas norte-americanas se deram conta de que matar terroristas tinha efeito exatamente ao contrário do pretendido. É que em torno de cada membro ativo de um grupo temos colaboradores, simpatizantes ostensivos, simpatizantes silenciosos e por aí vai. Para cada um que ia para o saco preto, outros dez parentes ou amigos do defunto se aproximavam do núcleo e o Talibã só fazia crescer. Por isso os militares estadunidenses mudaram radicalmente a abordagem e passaram a se limitar a operações pontuais contra alvos de grande valor estratégico, como foi o caso notório de Osama Bin Laden. Foi tarde demais e os EUA acabaram perdendo a guerra de maneira humilhante.
Estado do ônibus após ser incendiado na Ponte de Camburi
Estado do ônibus após ser incendiado na Ponte de Camburi Crédito: Daniel Marçal
Pode parecer um contrassenso como, aliás, quase tudo na segurança pública, mas as facções criminosas, em larga medida, se alimentam desses enfrentamentos com a polícia. Elas ganham mais afiliados, aumentam a coesão interna e até a sua “legitimidade” enquanto estrutura de poder paralela ao Estado.
Achar que o Rio de Janeiro chegou ao ponto em que está por causa de uma restrição do STF às operações policiais é ignorar décadas de uma eterna “crise” na segurança pública dos nossos vizinhos, apesar da atuação sem fim e sem freio das forças policiais fluminenses. Tem muita gente que acredita nessas lendas urbanas, mas que ninguém me acuse de começar a falar desse assunto só agora.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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