Um dos clássicos da literatura nacional é a obra “O Feijão e o Sonho”, publicada por Orígenes Lessa (1903-1986), jornalista e escritor paulista, membro da ABL. Esse romance obteve grande sucesso de público e de crítica, teve três adaptações para a televisão, sendo a última pela Globo, em 1976, e trata do conflito entre a realidade e o idealismo, um dos temas mais caros à literatura, desde o D. Quixote, de Cervantes, introdutor da modernidade narrativa.
A trama gira em torno de Campos Lara, poeta que vive a sonhar com a criação literária e o mundo da fantasia, deixando a vida prática e a dureza do cotidiano ao encargo da esposa, Maria Rosa, que tenta, inutilmente, trazê-lo à realidade.
Deixando de lado o livro, que minha geração leu, e que poucos das novas gerações conhecem, passemos à realidade vivida no último dia 7 de Setembro, feriado nacional em comemoração ao 199º ano da independência do Brasil de Portugal, mas não do endividamento com a Inglaterra, resultado dessa separação litigiosa.
O que vimos pelo Brasil afora, aquela massa de gente vestida de verde e amarelo, portando cartazes contra o Supremo Tribunal Federal, “Supremo é o Povo” – faltou complementar “que apoia um presidente genocida”, apoiando o golpe militar, com esse imbecil no poder, e pelo voto impresso, pauta já superada pelo Congresso Nacional.
Não vi nenhuma manifestação contra o preço absurdo da gasolina, contra a inflação já superando os dois dígitos, a mais alta em vinte anos, lamentando as quase seiscentas mil vítimas da Covid, com grande parte dessas mortes podendo ter sido evitada, se não tivéssemos um líder insensível e negacionista.
Nenhuma faixa de protesto criticava o desemprego monstruoso, o aumento absurdo da pobreza e da violência em nosso país, a desvalorização do real diante do dólar, a maior do mundo, a instabilidade política, o caos econômico, a crise hídrica, a seca e os incêndios, o desmatamento da Amazônia, do Pantanal, da Mata Atlântica, o fato de o Brasil ter-se tornado um pária no mundo. Enfim, a sensação que tivemos é de que a massa apoiadora do Bolsonaro vive em um mundo diferente do nosso, e, acredito, manifesta um patriotismo fajuto, em torno de um líder messiânico, desmiolado, desumano e insensível à dor do outro.
Retomando o livro acima citado, a maior parte da população brasileira está preocupada com o preço do feijão, que dobrou em um ano, do óleo de soja, do gás de cozinha, da conta de energia. Somos todos, ou quase, Maria Rosa. Por outro lado, os bolsominions não podem ser comparados ao poeta da obra ficcional, pois nada têm de idealismo, de fantasia, de empatia.
Ao buscarem culpar os outros pelas mazelas do atual governo - o STF, o Congresso, os governadores, os prefeitos, o PT, o Lula - o louco no poder, que manda comprar fuzil, em vez de feijão, revela uma psicopatia, definida pelo dicionário como “distúrbio mental grave, comportamentos antissociais e amorais, sem demonstração de arrependimento, incapacidade para amar e se relacionar afetivamente, egocentrismo extremo e incapacidade de aprender com a experiência”.
Seus seguidores fazem uma interpretação delirante da realidade, paranoide, com teorias de conspiração e de perseguição, buscando culpar o outro em tudo de errado. Mussolini e Hitler também fizeram isso com as massas, em seus tempos, criando hordas fascistas e nazistas, cujas raízes estão solidamente instaladas entre nós.