Início de ano, renovamos os nossos votos de fé e de esperança. Todos se cumprimentam, se desejam feliz ano novo, até que o primeiro mês termina e tudo volta a ser como dantes no quartel de Abrantes, expressão tão antiga como a própria língua com que nos comunicamos, mal e parcamente.
Poucos, no entanto, se lembram da terceira virtude teologal, a caridade, base do Cristianismo e do Islamismo. Amar ao próximo como a ti mesmo, fazer o bem sem olhar a quem são os principais mandamentos dessas doutrinas, mas poucos a praticam. Tão poucos que viram santos, como Francisco de Assis, na Idade Média; Madre Teresa de Calcutá e Irmã Dulce da Bahia, no século XX; e nos dias atuais, o padre Júlio Lancelotti, nas ruas de São Paulo.
O padre Júlio pratica o verdadeiro cristianismo, levando aos moradores em situação de rua da maior metrópole do país um pouco da solidariedade humana, por meio de alimentos, roupas, remédios e, principalmente, atenção. Ninguém vive na rua porque quer. Todo ser humano tem direito à vida, a um trabalho e remuneração dignos, à convivência com familiares, ao estudo, ao lazer, em suma, todo mundo tem direito a ter um pouco de felicidade.
Creio que existem tantos seres marginalizados, no Brasil e no mundo, por causa da ganância, da avareza, da soberba, do egoísmo e do materialismo exacerbado. O sistema capitalista condiciona as pessoas a ter, a acumular, a não repartir, a pensar só em si. Precisamos, urgentemente, de mais compaixão, de pessoas mais generosas, de mais solidariedade e empatia.
Em minha vida, que já se vai longa, não tenho visto muitas pessoas generosas, que pratiquem a bondade de forma desinteressada, sem esperar retorno. Alguns sinônimos para generosidade são nobreza, grandeza, dignidade, bondade, magnanimidade, benevolência, beneficência, humanidade, compaixão. O contrário da generosidade, seu antônimo, seria a avareza, ou ainda, mesquinhez, ganância, egoísmo e miséria.
Na época de estudante universitário, conheci uma pessoa generosa, Júlia Rachide; sem ela, não teria conseguido pagar uma pós-graduação, que me permitiu ascender na profissão. Outra pessoa generosa com quem convivi foi o Miguel Depes Tallon, que aglutinava pessoas em torno de si, a todos distribuindo conhecimento, simpatia, mimo. A principal característica dessas pessoas é “ser gente”.
Em sua etimologia, a palavra generosidade vem do latim gens, com fonte indo-europeia no termo gen, que significa gerar ou fazer nascer. As palavras iniciadas por gen em português remetem a essa ideia, como em gênese ou genitor. A palavra gente amplia o sentido para família ou clã, e generoso teria vindo dessa raiz, significando "aquele que teve bom nascimento". No português moderno, “generoso” acabou encontrando o sentido daquele que reparte nobremente. O conceito de generosidade não corresponde apenas ao compartilhamento de bens materiais, a dividir coisas. Pode-se ter generosidade em ações, ao compartilhar conhecimento, ao repartir o reconhecimento e as vitórias com todos aqueles que o ajudaram na trajetória.
No dia 31, encerrando o mês, aniversaria Ester Abreu, completando 91 anos de muita sabedoria e generosidade. Convivo com ela desde a infância, pois éramos vizinhos em Muqui. Ela, uma professora; eu, um eterno aprendiz. Ester é uma das pessoas mais generosas que conheço, fazendo na Academia Espírito-santense de Letras uma gestão compartilhada, democrática, que incomoda aos autocratas e aos que desejariam estar em seu lugar por vaidade ou soberba.
Completa, neste ano, mais de 70 anos de professora, sendo os últimos trinta como voluntária no Programa de Pós-Graduação em Letras da Ufes, por nós criado, em 1994. Professora Emérita, escritora com dezenas de livros e centenas de artigos publicados, a ela todo o nosso reconhecimento, carinho, apreço e consideração. Muito obrigado, Ester, e parabéns por ser o que é, um exemplo de dignidade para todos nós, seus inúmeros admiradores.