Qual a semelhança que pode existir entre um avião e uma baleia jubarte? Esta pergunta pode parecer, até certo ponto, sem sentido, mas ela existe, e não estamos falando sobre o tamanho de ambos. O que aproxima estes dois "gigantes" tão comuns no Espírito Santo é o som característico e similar que emitem e se propagam pelo ar e no mar, respectivamente. (veja e escute no vídeo acima).
Quem mora na Grande Vitória, principalmente nas regiões próximas ao aeroporto da Capital, já está familiarizado com o ruído diário dos motores das aeronaves durante os pousos e decolagens. Entretanto, um modelo em especial se diferencia dos demais: o Embraer 195-E2, maior avião comercial produzido no Brasil.
Em horários em que a cidade está mais silenciosa, toda vez que um exemplar deste modelo operado comercialmente pela Azul no país se aproxima do pouso, surge o som característico. Daí vem o apelo de baleia, como o jato é conhecido por passageiros, profissionais e entusiastas da aviação.
Nos últimos dias, a "sinfonia" viralizou em uma ação comercial da companhia aérea, que fez um voo sobre a orla do Rio de Janeiro. Nela, o avião surge bem próximo à praia e em baixa velocidade, fazendo ecoar o som que o caracteriza.
Afinal, que som é esse?
O técnico de manutenção de aeronaves Cristian Porto, de 48 anos, atua há quase três décadas no ramo e explica que este fenômeno sonoro acontece devido a uma característica central dos motores Pratt & Whitney GTF (Geared Turbofan), que equipam o E2 e também o Airbus A220.
"Quando está na aproximação, ele (o avião) está reduzindo a potência do motor, certo? Esse motor específico da Pratt & Whitney tem uma caixa de redução na frente que reduziu muito o tamanho físico do motor. Nele, também há uma compressão na câmara; porém, o ar já entra comprimido e o combustível também. Quando expulsa esses gases da explosão, ele vai girar a turbina de alta lá atrás, que, por sua vez, vai girar o fan lá na frente. Desta forma, quando você reduz o fluxo de combustível e ar da câmara de combustão, o efeito final vai dar neste som. Para facilitar, é como o funcionamento de uma tuba musical, aquele instrumento de sopro", explica.
Segundo ele, a fabricante de motores define esta ressonância harmônica pelo termo "low power transient combustor tone" — tom transitório do combustor de baixa potência. O efeito sonoro é mais comum e audível em transições de baixas velocidades, como nos pousos, mas também pode ocorrer durante decolagens e arremetidas.
Ainda conforme o especialista em manutenção, por anos a Pratt & Whitney investigou e estudou as causas desta vibração específica do modelo de motor utilizado no E2 e A220, o PW1900G, porém nada de anormal foi encontrado ou que ofereça qualquer possibilidade de risco à segurança operacional.
E sobre o som das baleias?
Saindo do ar e indo para o mar, é preciso dizer que várias espécies de baleias emitem o som, porém é a jubarte, tão frequente no litoral capixaba, uma das mais reconhecidas por esta característica auditiva.
Segundo a doutora em Biologia Animal, Lilian Sander Hoffamm, isso ocorre principalmente em épocas reprodutivas, em que os machos tentam atrair a atenção das fêmeas para acasalar.
"Dentre os diversos tipos de vocalizações emitidas por esta espécie, os mais conhecidos e estudados são as canções, que são longas e complexas. As jubartes agora estão chegando à nossa costa (as famosas áreas de reprodução), justamente por serem águas mais quentes do que aquelas do polo sul nessa época do ano, por isso migram para cá. As fêmeas se deslocam para estas áreas para darem à luz aos filhotes, e os machos as acompanham e tentam cortejá-las. Durante as interações, os machos emitem essas canções, que podem durar horas. De fato, alguns sons que elas fazem lembram o motor (do avião)", explica a especialista.
Vale ressaltar que o período delas por aqui começou recentemente, indo de junho a novembro, quando estas gigantes migram da Antártica para se reproduzir e dar à luz nas águas quentes do Brasil. O pico de avistamentos no litoral do Espírito Santo costuma acontecer entre os meses de julho e outubro.
Diferentemente dos aviões, para escutar o som delas é um pouco mais difícil. Isso porque é preciso estudar estes animais a campo ou procurar empresas que façam passeios autorizados até as regiões onde os mamíferos frequentam, além de uma dose de sorte para encontrá-los.
Lilian salienta que as jubartes emitem diferentes tipos de sons, mas, de uma forma geral, nesta época é possível escutá-los. Para isto, os pesquisadores utilizam equipamentos específicos, chamados hidrofones.
"Felizmente, os trabalhos de conservação desenvolvidos ao longo de anos fazem com que a população esteja se recuperando, com mais animais sendo avistados a cada ano, então tem muito som de baleia para ser escutado. A melhor forma é estando na água, em um mergulho, pois a propagação no ambiente aquático é excelente. Mas, algumas vezes, com o motor da embarcação desligado, o som é tão alto que até fora dela a gente escuta, e nem estou falando do emitido pelo avião", brinca a pesquisadora.
Isso deve-se ao fato de serem muito intensos e parte da energia passar da água para o ar.
Mas, caso não seja viável ir ao encontro delas em alto-mar, basta acompanhar os aplicativos de monitoramento de voos, procurar pelos que são operados no E2, dirigir-se até a região perto do Aeroporto de Vitória e aguardar pela aproximação da aeronave — em média, entre 4 a 6 voos da Azul neste avião que chegam à Capital diariamente. Em minutos, o som da baleia irá ecoar (e encantar).