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Brasil

Patriotismo e golpismo: a história brasileira é feita de tentativa de golpes

Assim é a história do Brasil, com golpes e guerras, golpistas camuflados de falsos patriotas, antidemocráticos a defender governos ditatoriais, por não saberem viver numa democracia

Públicado em 

13 fev 2023 às 00:20
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Vento derruba bandeira do Brasil no Palácio do Planalto
Vento derruba bandeira do Brasil no Palácio do Planalto no fim do mandato de Bolsonaro Crédito: Redes Sociais
No último dia oito, completou um mês da tentativa golpista bolsonarista que envergonhou o Brasil e o mundo. Imagens de verde-amarelistas invadindo as sedes dos Três Poderes, em Brasília, e quebrando tudo ficarão indelevelmente gravadas em nossa retina e nas câmeras que as gravaram.
Embora parecessem muitos, eram cerca de cinco mil radicais, entre civis insatisfeitos com a democracia e militares, da ativa ou da reserva, insubordinados. E assim é a história da nossa República! Desde o golpe cívico-militar de 15 de novembro de 1889 contra uma monarquia parlamentarista, a história brasileira é uma tentativa de golpes, bem ou mal-sucedidos, contra o regime democrático. Verdadeiros patriotas são os que respeitam a democracia e o estado democrático de direito. E a história nacional é cheia de golpistas vestidos de patriotas.
O historiador Hélio Silva, que terminou sua vida como monge beneditino, nos conta em sua “História da República Brasileira”, que os idealizadores da República (e golpistas contra a Monarquia!) foram os filhos de grandes fazendeiros, estudantes de Direito em São Paulo ou Recife (caso de nosso Afonso Claudio, o primeiro governador republicano capixaba), que se uniram a militares e a representantes da classe média mais a nascente burguesia industrial.
Proclamado o golpe e banida a família imperial, sem qualquer resistência nas províncias, Deodoro da Fonseca, o militar mais antigo, aliado do Imperador, foi promovido a marechal e aclamado generalíssimo das Forças de terra e mar. (Ah! Os superlativos! Machado de Assis, nosso melhor escritor, ironizou essa mania nacional com o personagem José Dias, em “Dom Casmurro”. E, em “Esaú e Jacó”, o oportunismo dos que eram monarquistas e viraram republicanos da noite pro dia...).
A República nasce antidemocrática. Os positivistas que a apoiaram e deram o lema de nossa bandeira nacional, “Ordem e Progresso”, dois dias após o golpe, fizeram uma passeata pelas ruas do Rio de Janeiro, a capital do país, empunhando faixa com o dístico citado, e defendendo um regime ditatorial. Defendiam um ditador que acumulasse os três poderes e com liberdade na escolha de seu sucessor. Opunham-se ao parlamentarismo, vigente na Monarquia, eram favoráveis a uma Câmara única, exclusivamente orçamentária, à separação entre a Igreja e o Estado e à liberdade espiritual, mas nâo à de imprensa.
Eram minoria e tiveram apenas dois representantes no Governo Provisório de Deodoro: o Tenente-Coronel Benjamin Constant, professor na Escola Militar e um dos principais ideólogos da República, ministro da Guerra, e Demétrio Ribeiro, ministro da Agricultura. Os demais ministros, Quintino Bocaiúva, das Relações Exteriores, Rui Barbosa, da Fazenda, Aristides Lobo, do Interior, Campos Sales, da Justiça, Wandenkolk, da Marinha e Floriano Peixoto, vice-presidente, representavam, cada um, as diferentes facetas de republicanos.
Os primeiros anos da República foram turbulentos. Um ano depois é instalada a Assembleia Constituinte e, em 1891, é promulgada a Constituição dos Estados Unidos do Brasil. Nesse ano, morre Benjamin Constant e são eleitos os marechais Deodoro e Floriano para presidente e vice-presidente do Brasil.
Dois anos após a proclamação da República, Deodoro fecha o Congresso, convoca eleição de deputados e a abertura de nova Constituinte para o ano seguinte; renuncia, sendo substituído pelo vice. Deodoro morre em agosto de 1892, o vice assume em meio a uma grave crise nacional: greve de operários da Estrada de Ferro Central do Brasil, revolta do Rio Grande do Sul e Revolta da Armada.
Floriano, o chamado “Marechal de Ferro”, decreta estado de sítio no país, enfrenta os revoltosos da armada, manda o exército combater os revoltosos gaúchos, agindo não como presidente constitucional, mas como um ditador. Diante de sua recusa em marcar eleição presidencial, treze oficiais-generais protestaram e foram presos por ele. Rui Barbosa, o maior jurista do país, impetrou um mandado de habeas corpus ao STF, que o negou, pois Floriano estabeleceu a nova ordem: “Quem dará habeas corpus ao Supremo”?
Como ditador, estava acima de tudo e de todos. Floriano passou à história como o consolidador da República, mas, ao custo de muito sangue derramado no país, que viveu uma guerra civil, com o sacrifício de muitos brasileiros, de um lado e de outro. E assim é a história do Brasil, golpes e guerras, golpistas camuflados de falsos patriotas, antidemocráticos a defender governos ditatoriais, por não saberem viver numa democracia.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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