No último dia oito, completou um mês da tentativa golpista bolsonarista que envergonhou o Brasil e o mundo. Imagens de verde-amarelistas invadindo as sedes dos Três Poderes, em Brasília, e quebrando tudo ficarão indelevelmente gravadas em nossa retina e nas câmeras que as gravaram.
Embora parecessem muitos, eram cerca de cinco mil radicais, entre civis insatisfeitos com a democracia e militares, da ativa ou da reserva, insubordinados. E assim é a história da nossa República! Desde o golpe cívico-militar de 15 de novembro de 1889 contra uma monarquia parlamentarista, a história brasileira é uma tentativa de golpes, bem ou mal-sucedidos, contra o regime democrático. Verdadeiros patriotas são os que respeitam a democracia e o estado democrático de direito. E a história nacional é cheia de golpistas vestidos de patriotas.
O historiador Hélio Silva, que terminou sua vida como monge beneditino, nos conta em sua “História da República Brasileira”, que os idealizadores da República (e golpistas contra a Monarquia!) foram os filhos de grandes fazendeiros, estudantes de Direito em São Paulo ou Recife (caso de nosso Afonso Claudio, o primeiro governador republicano capixaba), que se uniram a militares e a representantes da classe média mais a nascente burguesia industrial.
Proclamado o golpe e banida a família imperial, sem qualquer resistência nas províncias, Deodoro da Fonseca, o militar mais antigo, aliado do Imperador, foi promovido a marechal e aclamado generalíssimo das Forças de terra e mar. (Ah! Os superlativos! Machado de Assis, nosso melhor escritor, ironizou essa mania nacional com o personagem José Dias, em “Dom Casmurro”. E, em “Esaú e Jacó”, o oportunismo dos que eram monarquistas e viraram republicanos da noite pro dia...).
A República nasce antidemocrática. Os positivistas que a apoiaram e deram o lema de nossa bandeira nacional, “Ordem e Progresso”, dois dias após o golpe, fizeram uma passeata pelas ruas do Rio de Janeiro, a capital do país, empunhando faixa com o dístico citado, e defendendo um regime ditatorial. Defendiam um ditador que acumulasse os três poderes e com liberdade na escolha de seu sucessor. Opunham-se ao parlamentarismo, vigente na Monarquia, eram favoráveis a uma Câmara única, exclusivamente orçamentária, à separação entre a Igreja e o Estado e à liberdade espiritual, mas nâo à de imprensa.
Eram minoria e tiveram apenas dois representantes no Governo Provisório de Deodoro: o Tenente-Coronel Benjamin Constant, professor na Escola Militar e um dos principais ideólogos da República, ministro da Guerra, e Demétrio Ribeiro, ministro da Agricultura. Os demais ministros, Quintino Bocaiúva, das Relações Exteriores, Rui Barbosa, da Fazenda, Aristides Lobo, do Interior, Campos Sales, da Justiça, Wandenkolk, da Marinha e Floriano Peixoto, vice-presidente, representavam, cada um, as diferentes facetas de republicanos.
Os primeiros anos da República foram turbulentos. Um ano depois é instalada a Assembleia Constituinte e, em 1891, é promulgada a Constituição dos Estados Unidos do Brasil. Nesse ano, morre Benjamin Constant e são eleitos os marechais Deodoro e Floriano para presidente e vice-presidente do Brasil.
Dois anos após a proclamação da República, Deodoro fecha o Congresso, convoca eleição de deputados e a abertura de nova Constituinte para o ano seguinte; renuncia, sendo substituído pelo vice. Deodoro morre em agosto de 1892, o vice assume em meio a uma grave crise nacional: greve de operários da Estrada de Ferro Central do Brasil, revolta do Rio Grande do Sul e Revolta da Armada.
Floriano, o chamado “Marechal de Ferro”, decreta estado de sítio no país, enfrenta os revoltosos da armada, manda o exército combater os revoltosos gaúchos, agindo não como presidente constitucional, mas como um ditador. Diante de sua recusa em marcar eleição presidencial, treze oficiais-generais protestaram e foram presos por ele. Rui Barbosa, o maior jurista do país, impetrou um mandado de habeas corpus ao STF, que o negou, pois Floriano estabeleceu a nova ordem: “Quem dará habeas corpus ao Supremo”?
Como ditador, estava acima de tudo e de todos. Floriano passou à história como o consolidador da República, mas, ao custo de muito sangue derramado no país, que viveu uma guerra civil, com o sacrifício de muitos brasileiros, de um lado e de outro. E assim é a história do Brasil, golpes e guerras, golpistas camuflados de falsos patriotas, antidemocráticos a defender governos ditatoriais, por não saberem viver numa democracia.