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Atos antidemocráticos

A revolução dos idosos

Foi montada uma estratégia perversa de converter os valores naturalmente mais conservadores dos mais velhos em ideais de manutenção de práticas sociais que estão esgotadas. O retorno a um passado que os encanta é a tônica do processo

Públicado em 

11 fev 2023 às 00:25
João Gualberto

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João Gualberto

Detidos por ataques terroristas nas sedes dos Três Poderes no ginásio da Academia da Polícia Federal
Detidos por ataques terroristas nas sedes dos Três Poderes no ginásio da Academia da Polícia Federal Crédito: Nayá Tawane
A imprensa brasileira e as redes sociais todas chamaram muito a atenção para a forte presença de pessoas mais velhas nos acampamentos que foram mantidos diante dos quartéis do exército entre o fim das eleições e o fatídico dia 8 de janeiro. Não por acaso, foi a única vez há história mais recente do mundo em que a revolta vem dos mais velhos
Entretanto, esse fenômeno da participação política recente de pessoas mais velhas é muito mais amplo do que o das manifestações em si mesmo. Diz respeito ao tecido social com que se construiu a direita em todo o mundo, a partir dos primeiros anos do século XXI. A comunicação digital foi ganhando muita força, até dominarem quase que com exclusividade o processo de formação de opinião. A produção das informações que alimentam a produção de opiniões e a construção das ideologias migrou para as redes sociais.
Elas passaram a ser o lugar da política, em especial o lugar de expressão das novas direitas que foram surgindo no mundo globalizado. Desde a primavera de abril de 2011, as grandes manifestações brasileiras de 2013 até as eleições brasileiras e americanas de 2016 e 2018, tudo passou a acontecer a partir dos espaços digitais. Não podemos esquecer o Brexit.
Esse é o ponto de partida. O lugar da política são as redes sociais, é nelas que tudo acontece. Toda uma estratégia ousada foi montada pelos grandes formuladores das novas direitas globais, como o americano Steve Bannon. Nessa estratégia de construção da desinformação de forma metódica e sistemática, quanto mais analógica for a pessoa, mas visada ela é. Existem obviamente dentro das novas direitas muitos jovens, isso é inegável.
Mas o foco mais intenso da conversão para um ideário conservador, seu centro vital, é, sem dúvida, nos mais velhos. Não são capazes de reconhecer montagens mais grosseiras e caem nas fake news com bastante boa-fé, ingenuidade mesmo. Assim, foi montada uma estratégia perversa de converter os valores naturalmente mais conservadores dos mais velhos em ideais de manutenção de práticas sociais que estão esgotadas. O retorno a um passado que os encanta é a tônica do processo.
No caso brasileiro, fala alto a ordem que os militares poderiam garantir com um retorno de um regime forte, garantidor de segurança contra os perigos do mundo. A globalização que rouba empregos no ocidente é sintetizada no tal globalismo, no comunismo e mesmo marxismo cultural. Há demônios soltos e somente a força da ordem, uma tirania dos seres humanos do bem, daria cabo desses inimigos terríveis. Os mais velhos é que entendem desse passado idílico, logo ganham grande espaço nesse retorno aos tempos de ouro.
Esse novo formato de política feita pelos cabeça brancas analógicos, dependentes das redes de WhatsApp como única fonte de informação, extremamente crentes em suas verdades precárias é que movimentou com densidade – embora não com exclusividade – os movimentos mais radicais brasileiros dos últimos quatro anos. Esse contingente está aí, só crê nos seus celulares e naquilo que fortalece seus princípios. É um nó para desatarmos na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, baseada em valores democráticos.

João Gualberto

É professor emérito da Ufes, doutor em Sociologia Política pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (França). Foi Secretário de Cultura do Espírito Santo entre 2015 e 2018. História e sociologia do cotidiano. Um olhar sobre o Brasil e o Espírito Santo

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