A Festa da Penha, tradição iniciada em 1570 pelo Frei Pedro Palácios, frade espanhol que chegou ao Espírito Santo, trazendo debaixo dos braços uma imagem de Nossa Senhora das Alegrias e iniciando, no Brasil, a devoção a Maria, mãe de Jesus. Auxiliado pelos povos originários, que também cultuavam Tupanci, a mãe de Tupã/Deus, e pelos escravizados com suas crenças em orixás femininos, como Ogum e Iemanjá, iniciou a construção de uma igreja sobre a rocha, o Convento da Penha, construção original da arquitetura religiosa colonial, com a sua estrutura em forma de castelo medieval, a única em todo o território brasileiro.
Frei Pedro, o Piedoso Eremita, morreu naquele mesmo ano, mas a sua devoção permanece há 455 anos, tornando-se uma das principais devoções religiosas do Brasil, a terceira em quantidade de devotos, logo após à de Aparecida e à do Círio de Nazaré.
O Convento das Penha só foi concluído no século XVII, durante o período da dominação espanhola (1580-1640), época em que os espanhóis travaram guerras pelo mundo contra os seus inimigos ingleses, franceses e, sobretudo, os holandeses. Por diversas vezes, esses inimigos de Espanha tentaram invadir Vitória, e, em 1625, quase conseguiram, se não fosse a defesa aguerrida da cidade por indígenas aliados e pela população, dentre as quais se destacou Maria Ortiz, jovem filha de espanhóis, que liderou o contra-ataque aos batavos, jogando água fervente sobre os invasores das janelas dos sobrados da ladeira do Pelourinho, que dava acesso à Cidade Alta.
Maria Ortiz ficou na história capixaba como exemplo da mulher destemida, que lutou, bravamente, junto aos homens pela construção da sociedade como a temos hoje. Mito, lenda ou fato histórico, pois não há documentos comprobatórios de sua existência, Maria Ortiz se eternizou como símbolo da mulher guerreira capixaba, tornando-se nome de escola, de bairro, de rua, da ladeira onde morava, de comenda na Assembleia Legislativa e, quiçá, um dia, de algum município para se juntar ao de Dona Colatina, digníssima esposa do governador Moniz Freire.
Embora não existam documentos sobre a vida e a obra de Maria Ortiz, os historiadores de diferentes épocas não a deixam de citar. A tradição fala mais forte e a história não é feita, apenas, de registros escritos. O fato histórico é que, em 12 de março de 1625, uma esquadra com oito naus holandesas atracou na baía de Vitória, comandada pelo capitão Pieter Heyn, para atacar a Vila da Vitória, ainda desprovida dos fortes que a defenderiam, no século seguinte.
Por duas vezes tentaram invadir a Vila, mas foram rechaçados pelos moradores comandados por Francisco de Aguiar Coutinho, o donatário descendente de Vasco Coutinho. Assim descreve Basílio Daemon a luta: “No dia 14 experimentaram ainda os holandeses um novo combate e, enquanto este se dava, um contingente de tropa, comandado por um oficial, subia pela então ladeira do Pelourinho, onde se achavam alguns combatentes da vila com uma pequena peça, mas vendo que o número de holandeses era numeroso, abandonaram o posto: é então que uma mulher heroína, de nome Maria Ortiz, e que morava em uma casa na quina da mesma ladeira com a rua da Matriz, estando à janela, esperando a passagem dos holandeses, e chegados que foram embaixo da janela onde ela se achava, derrama sobre eles um tacho de água a ferver, queimando-os horrivelmente, o que os fez retroceder e desanimar; feito isto, Maria Ortiz, animando os soldados, fá-los disparar a peça que se achava acima de sua casa, e que já lemos ter sido ela própria, Maria Ortiz, que lhe pusera fogo com um tição, então caindo os combatentes novamente reunidos sobre os holandeses, que eram em maior número, fá-los debandar com perda de 30 homens e mais de 44 feridos, recolhendo-se aos lanchões, mas deixando ainda alguns que foram tomados, declarando-se assim a vitória a favor dos moradores da capitania, que muito foram auxiliados pelos padres jesuítas, que os animavam e socorriam”. (In: Província do Espírito Santo. 2ed. 2010. P.164-5).
Nossa Senhora da Penha, Padroeira do Espírito Santo, a Mãe das Alegrias, e Maria Ortiz, a primeira heroína capixaba e, quiçá, brasileira, são imagens e símbolos fortes para todas as mulheres, sem as quais não existiria a vida humana sobre a terra. A elas, nossa homenagem, nestes tempos em que se cometem tantos feminicídios, páginas dolorosas de nossa história.