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Crônica

Neste início de ano dramático, um refúgio em Hilda Hilst

O humor ácido, o ceticismo, o escárnio, o deboche e a lucidez de Hilda me confortam e me indicam o que tudo sabemos: tudo passa e volta, como farsa, drama ou tragédia

Públicado em 

17 jan 2022 às 02:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Hilda Hilst
Hilda Hilst, escritora e poeta Crédito: Reprodução
Mal o ano começou e já estamos convivendo com tragédias e dramas, aqui e acolá, que nos afetam o equilíbrio mental, a paz espiritual e o controle emocional. Vivemos numa aldeia global e tudo o que acontece por toda parte nos chega com a velocidade do raio. A imagem da pedra que se deslocou no cânion, em Capitólio (MG), matando dez pessoas que curtiam as férias, chegou até nós na hora em que acontecia, postada por pessoas que estavam nas lanchas que a tudo presenciaram. As redes sociais transmitem tudo numa velocidade até pouco tempo inimaginável. Não precisamos esperar mais os noticiários noturnos, nem o jornal do dia seguinte, para saber o que está acontecendo no mundo. Tudo nos chega às mãos num zap, pelo WhatsApp.
Assim, iniciamos o ano acompanhando o drama dos alagamentos na Bahia, Minas Gerais, Tocantins, Rio de Janeiro e Espírito Santo; a nevasca que matou várias pessoas presas em carros numa serra do Paquistão; as dezenas que morreram incendiadas em prédios populares de Nova York, isso sem contar os casos cotidianos de assaltos, sequestros, mortes, a que já estamos, infelizmente, acostumados.
E não deveríamos, como nos disse, em crônica inesquecível, Marina Colassanti, já há alguns anos. No Cazaquistão, o presidente manda matar centenas de pessoas que protestavam contra o aumento do combustível. Pode isso, Tribunal de Haia? Isso é genocídio. Na fronteira da Ucrânia, militares russos se preparam para invadir o país à primeira ordem do ditatorial Putin.
Como se não bastasse tudo isso, nova onda de Covid assola a Europa, os EUA e o Brasil. E, desta vez, somada à epidemia de H2N3, uma nova variante da influenza, a tal da gripe espanhola que há mais de cem anos atormenta o mundo. Após as festas de Natal e de Réveillon, a variante Ômicron se espalhou, assustadoramente. Milhares de pessoas acorreram para farmácias, unidades de pronto atendimento e hospitais, procurando exames e tratamentos, os leitos hospitalares voltaram a se ocupar, mas faltam profissionais de saúde, esgotados, após dois anos de pandemia, ou contaminados pela nova variante, que não perdoa nem os vacinados.
Em pleno verão, mês de férias escolares, centenas de voos são cancelados, diariamente, pois os tripulantes adoeceram. E agora, José? Perguntaria o Drummond, e nem ir para Minas se pode, pois as estradas estão interditadas por deslizamentos, barragens que se romperam e até as viagens de trem foram canceladas. É um cenário semelhante ao de 1979, que os que vivenciaram nunca esqueceram, piorado pelas pestes que nos rondam.
Sem poder viajar, isolado e temeroso, recorro à literatura, como sempre, sem “olhar para cima”, pois o desastre é iminente. Desta vez, recomendado pela querida e sempre antenada Jeanne Bilich, que tudo vê e lê de seu castelo, leio as 132 crônicas de Hilda Hilst, “Cascos & Carícias e outros escritos”, escritas há 30 anos, quando outro louco desgovernava nosso país, o tal do Collor.
O humor ácido, o ceticismo, o escárnio, o deboche e a lucidez de Hilda me confortam e me indicam o que tudo sabemos: tudo passa e volta, como farsa, drama ou tragédia. E de tanta coisa genial que leio em sua obra, retiro este trecho para concluir essa desalentada crônica de início de ano: “Alguns homens geniais sugeriram que o problema do homem é o de encontrar alguma substância química que o imunize da barbárie. E digo simplesmente que é preciso devolver a alma ao homem”. E nada mais precisa ser dito, caro leitor.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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