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Confusão

Minha primeira viagem pós-pandemia: um cruzeiro para ser esquecido

Alterações de itinerário, dez dias sem parada no navio, cães farejadores na porta do quarto. Conselho de velho viajante: se puder, fique em casa e deixe as viagens mais para frente

Publicado em 09 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

09 mai 2022 às 02:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Cruzeiro temático de
Cruzeiro (foto meramente ilustrativa) Crédito: Reprodução/;cruisewithfriends.net
Em 2019, comprei um cruzeiro da MSC, que embarcaria em Santos e desembarcaria em Warnemunde, Alemanha. O motivo principal da escolha desse cruzeiro foi o roteiro, pois sou pesquisador da vida e da obra do padre José Anchieta, hoje santo, nascido em São Cristóvão de La Laguna, em 1534, e falecido em Reritiba, atual Anchieta, em 1597.
Uma das paradas previstas era Tenerife, ilha onde se localiza a cidade de Laguna, berço de Anchieta. Como sou do Espírito Santo, onde Anchieta viveu e está enterrado, faltava-me visitar a cidade onde ele nasceu. Infelizmente, devido à pandemia de Covid-19, o cruzeiro foi cancelado.
A companhia ofereceu um crédito que gastei, para usar em cruzeiros futuros, mas perdi o que foi gasto em aéreo, hotel, pois nada foi devolvido. Remarquei o cruzeiro para o ano seguinte, em março de 2021, que também não saiu. Remarquei-o para novembro, fazendo o sentido inverso. Todos eles incluíam a parada em Tenerife. Também no de novembro não foi autorizada a vinda de passageiros. Remarquei, pela terceira vez, o cruzeiro de travessia para março de 2022, um roteiro com paradas em Salvador, Maceió, Tenerife, Funchal, Valência e Marselha, finalizando em Gênova.
Em janeiro de 2022, os cruzeiros no Brasil foram suspensos. Ficamos sem saber se a saída de março ocorreria ou não. Em 5 de março, os cruzeiros foram liberados e nossa saída de 20/3 confirmada, com itinerário alterado. Tiraram Salvador e Maceió e puseram três paradas nas Canárias, Santa Cruz de La Palma, Las Palmas de Grã Canária e Santa Cruz de Tenerife. Foi uma correria para comprar aéreo, tomar vacinas, fazer teste de Covid, mas estávamos ansiosos por viajar após dois anos e meio presos em casa e, finalmente, poder visitar La Laguna, a cidade onde nasceu Anchieta.
O embarque foi tumultuado, tivemos de fazer novamente o RT-PCR para Covid, embora o tivéssemos feito no dia anterior, e nos deram para assinar uma folha onde consentíamos com a mudança de itinerário, que incluía paradas em Santa Cruz de La Palma, no dia 28, Las Palmas, no dia 29 e Santa Cruz de Tenerife, no dia 30.
Nesse último, comprei pacote de visita a Laguna e museu antropológico, para mim e esposa. Estávamos há seis dias viajando, quando fomos surpreendidos por uma carta do comandante, comunicando que o itinerário original, o mesmo com que nos exigiram consentimento, havia sido alterado por “necessidades operacionais imprevistas de abastecimento de combustível”. Foram canceladas as paradas em Santa Cruz de La Palma e em Santa Cruz de Tenerife, mantendo, apenas, a de Las Palmas.
Alguns passageiros, revoltados, interromperam o show do cantor sul-africano e solicitaram a presença do comandante. Ele compareceu, mas disse que nada poderia fazer. Como forma de “compensar” a frustração, ofereceu cem dólares por cabine e transfer de ferry-boat a Tenerife para 500 passageiros, em Las Palmas. Quando fui procurar o setor de excursões, os tickets já estavam esgotados.
Ficamos dez dias sem nenhuma parada, o que tornou a viagem entediante e cansativa. Os protocolos contra Covid também eram empecilhos para uma viagem mais relaxante. Fizemos teste de Covid três vezes: antes do embarque, no dia do embarque e um dia após. Ainda que necessários, tornaram a viagem tensa, para quem pretendia relaxar e visitar novos lugares.
Além do mais, convivemos, nessa viagem, com traficantes, pois, ao chegarmos a Valência, dez brasileiros foram presos com 54 quilos de cocaína e, no dia seguinte, em Marselha, um casal foi preso com mais 27 quilos. Acordamos com cães farejadores à porta de nossa cabine, pois todos os traficantes estavam no nosso deque, o nono. Enfim, esse foi um cruzeiro para esquecer. A volta foi, também, um horror, mas o espaço acabou, conto em outra ocasião. Conselho de velho viajante: se puder, fique em casa e deixe as viagens pra frente.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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