Em 2006, numa das minhas viagens pelo mundo, em torno das ilhas britânicas, visitei Belfast, a capital da Irlanda do Norte, cidade de cerca de 350 mil habitantes, porto e centro industrial, sem maiores atrações turísticas. Em um city tour, vimos os principais pontos de interesse da cidade, e o que se destacam são grandes painéis de artistas que homenageiam os acontecimentos de 1969, quando a população local se envolveu numa luta fratricida entre os protestantes, a maioria, e a minoria católica.
Ainda me lembrava das cenas transmitidas em jornais de carros explodindo, bombas atiradas, pessoas mortas, e da sigla IRA, Exército Republicano Irlandês, movimento armado que lutou, por muitos anos, pela independência e unificação da Irlanda. A partir de 1969, a violência na Irlanda do Norte se acentuou, com o IRA efetuando ataques contra alvos protestantes e, principalmente, defendendo a minoria católica.
Essa minoria, que era maioria em todo o território irlandês, passou a encarar o catolicismo como símbolo de resistência contra a agressão britânica e como elemento comum para a reunificação da Irlanda. Em 2005, o IRA anunciou o fim da "luta armada" e o processo de entrega de armas terminou em 26 de setembro de 2005. A Irlanda permaneceu dividida, com a maior parte católica, independente, e o Ulster, Irlanda do Norte, protestante e ligada ao Reino Unido.
"Belfast" é um dos filmes candidatos ao Oscar neste domingo (27), concorrendo a sete estatuetas (filme, direção, atriz, ator coadjuvante, roteiro original, som e canção original). Deve ganhar alguns, talvez o de direção, ator ou atriz e alguma outra categoria técnica.
O diretor Kenneth Branagh é ator, diretor e roteirista norte-irlandês, nascido em Belfast, em 1960. Aos nove anos, mudou-se para a Inglaterra, onde estudou na Royal Academy of Dramatic Art. É um dos mais importantes intérpretes de Shakespeare da atualidade. É conhecido por interpretar Gilderoy Lockhart em "Harry Potter" e Hercule Poirot em "Assassinato no Expresso Oriente" e "Morte no Nilo", por dirigir e atuar no filme "Mary Shelley's Frankenstein", e por dirigir o filme "Thor", além do clássico "Cinderella".
Belfast é narrado sob a ótica de um menino, Buddy, provavelmente alter-ego do diretor, que tinha a mesma idade do personagem central de seu filme quando vivenciou as cenas de violência ocorridas em sua cidade natal, em 1969, de lutas entre protestantes e católicos.
O filme se inicia, em cores, na época atual, mostrando, em plano aéreo, a cidade de Belfast, seu porto, com navios de cruzeiro atracados, as ruas tranquilas, a cidade harmônica, com uma arquitetura horizontalizada, sem grandes prédios e nada de moderno. Há um corte, as cenas mudam para preto e branco e o foco se fecha numa pequena rua da cidade do título, onde será contada a história de Buddy e sua família, operários pobres, que lutam para sobreviver, pagar o aluguel, trabalhando para ingleses, do outro lado do canal.
O pai é carpinteiro, assim como o avô fora trabalhador em mina de carvão, e agora sofre os efeitos de doenças adquiridas nesse trabalho. A família de Buddy é protestante, mas, na rua, há outras de crença católica, incluindo a da colega de escola, por quem é apaixonado, e vivem em harmonia, até que o equilíbrio se rompe, radicais atiçam a fogueira e tudo se explode.
O filme é, sobretudo, a história de uma família de operários, enfocando os papéis centrais da mãe e da avó, que mantêm a coesão da família, mesmo com o afastamento dos maridos para trabalhar fora, num tempo de mudança de costumes e de valores dos papéis domésticos.
Não é um filme rancoroso, mas de ternura e de afeto. Nele, são claros o carinho e o respeito das crianças pelos mais velhos e a recíproca é verdadeira. Mesmo quando o avô orienta o neto a disfarçar os numerais para provocar dúvida na professora, o faz por amor ao neto.
Não é um filmaço, mas é bom, nestes tempos de fratura, em que assistimos famílias destroçadas pelas guerras, mães desesperadas em fuga com filhos. Certamente, no futuro, alguns deles contarão essas histórias de horror em que vivem. O tempo é cíclico e a memória é que nos faz reviver o passado para recriá-lo, artisticamente, como o fez, magistralmente, Branagh, neste Belfast.