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Francisco Aurelio Ribeiro

Leitura, literatura e escola: o prazer que nasce na infância

Conforme já dito tantas vezes, “livros não mudam o mundo; livros mudam pessoas”. Essas é que podem mudar o mundo, através da leitura que fizerem dele

Publicado em 04 de Maio de 2026 às 03:00

Públicado em 

04 mai 2026 às 03:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Há 50 anos, me formei em Letras, e já era professor de Português no Ensino Fundamental e Médio havia três. Queria formar meus alunos leitores como eu, pois gostava de ler livros de literatura e queria que meus alunos também aprendessem a amar os livros, paixão que não aprendi na escola, mas em casa, com minha mãe e meu avô, grandes contadores de histórias. 


Na escola em que lecionava, em Guaçuí, havia um amplo espaço para a biblioteca, mas sem livros. Fizemos campanha na comunidade, rifas, um jornalzinho e, com o dinheiro arrecadado, compramos alguns livros de bolso da Ediouro. Eram clássicos da literatura, mas legíveis para eles: Érico Veríssimo, Jorge Amado, Orígenes Lessa, Rachel de Queiroz. 


Nessa época, em plena ditadura, surgiu a coleção Vaga-lume, cujos livros viraram best-seller, na escola, e a Coleção do Pinto, lançada por Wander Piroli, em BH, com temas realistas. Preferia a segunda, embora também indicasse livros como “A ilha perdida”, uma história meio pastiche do Robinson Crusoé. 

O escritor baiano Jorge Amado, em 1972
O escritor baiano Jorge Amado, em 1972 Arquivo Nacional

A coleção Vaga-lume fazia sucesso na escola, pois reduzia tudo a um  enredo previsível, com final feliz, ausência de conflitos sociais e sexuais, o que, para a escola da época, era bom. O escritor paranaense Cristóvão Tezza conta que um de seus livros teve uma edição de cinco mil exemplares vendida em seis meses, mas a editora, pressionada por professoras, queria tirar uma cena de namoro entre dois jovens, com o que ele não concordou. Nunca mais o livro foi editado.


Também já passei por momentos de censura escolar com meus livros. Comecei a publicar para crianças em 1983, já com dez anos de magistério, e meus oito primeiros livros saíram por editoras de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo e tinham divulgação nacional. Quando comecei a publicar  aqui, os livros deixaram de circular fora, e sofri algumas críticas locais. 


“Ora, pombas!” é uma história  baseada na emigração de jovens brasileiros, no início dos anos 90, e trata de temas como racismo, sexualidade e não foi bem recebido na escola, embora faça sucesso com a crítica até hoje. “Frajola e sua paixão” teve críticas como tematizar o homoerotismo. Ambas foram baseadas na realidade e apenas estilizadas estilisticamente. 


“Histórias Capixabas” teve a imagem da capa de Nossa Senhora da Penha substituída pela de Maria Ortiz para agradar ao público evangélico, bem como “Clarissa e o beija-flor”, obra premiada pelo edital da Secult, em 2016, que teve a imagem de S. Francisco de Assis, no prólogo, eliminada nas outras edições. 


Recentemente, o livro “Pretinha” não foi indicado para leitura numa grande escola católica de Vitória, por causa do adjetivo ‘foguenta’, relacionado à protagonista. O que, na minha visão de mundo significava ‘espevitada, agitada’, na da pedagoga tinha conotação sexual. 


No meu ultimo livro selecionado no edital da Sedu, “Dona Mariquinha”, o final ficou mais pedagógico, por sugestão dos profissionais que o analisaram. Meu livro “Juanita e sua galinha”, uma história passada na Guatemala, já foi acusado de suavizar o trabalho infantil, enquanto o que fiz foi apenas contar uma história que vivi naquele belo e injusto país.


Enfim, a leitura é o momento especial em que se completa o triângulo da relação entre o texto, o seu produtor e o receptor da obra. Apesar de vivermos a era da informática e das redes sociais, o mundo da informação não dispensou a figura e o papel do livro e do texto escrito como instrumento de informação, de educação ou de lazer. 


Nos países onde há o maior índice de uso de computadores por habitante, os escandinavos, Canadá e Japão, dentre outros,  também há um alto índice de consumo de livros por habitante. Ou seja, é falsa a ideia de que a informatização eliminou a leitura de livros, jornais e revistas, assim como a televisão não acabou com o cinema e este, com o teatro. Como a formação do leitor brasileiro não se faz nas famílias, de modo geral, cabe à escola esse papel.


No Espírito Santo, a Secretaria Estadual de Educação tomou à frente essa bandeira e tem a difícil missão de envolver profissionais e comunidade nessa tarefa gigantesca de superar as deficiências econômico-sociais e formar, em cada sala de aula, um espaço democrático de leitura. Ler para se informar, para conhecer, para se educar, mas, também, ler por prazer, pelo lúdico, pela alegria que as histórias nos dão, desde que nascemos e as ouvimos, até o momento em que, sozinhos, podemos escolher o nosso texto de prazer. 


O “Pacto pela Aprendizagem no ES” lançou a coleção PAES Alfabetização, há três anos, adotando o texto literário de autores capixabas como núcleo de trabalho, numa perspectiva enunciativo-discursiva da linguagem. 

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Não se trata apenas de uma compra de livros de literatura que são enviados à escola, sem qualquer orientação, como já ocorreu antes. Daí a importância pioneira desses cadernos para a formação leitora e da identidade capixaba desde os primeiros anos do Ensino Fundamental.  


Nós, escritores, sempre recebemos convites para ir a escolas, participar de Feiras de Livros e conversar com alunos. É com grande prazer que fazemos isso e algumas escolas nos presenteiam com lembranças. Agradecemos, emocionados, mas o de que o autor mais gosta é que seu livro seja lido, discutido, trabalhado em classe pelo professor e se torne motivo para outras leituras e manifestações artísticas dos alunos. 


Todavia, a melhor conversa do autor com o seu leitor é o seu texto, aquilo que ele escreve. Quando criança ou jovem, adorava ler as obras de Júlio Verne, Herman Hesse, Clarice Lispector, sem os conhecer, pessoalmente. Mas se tornaram meus grandes amigos por tudo que escreveram e pelo que contribuíram para a minha formação como pessoa e como cidadão. 


E, conforme já dito tantas vezes, “livros não mudam o mundo; livros mudam pessoas”. Essas é que podem mudar o mundo, através da leitura que fizerem dele, com a sua prática e consciência.


Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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