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Livros

Leitura e humanização: a Bíblia é citada como o livro mais lido no país

Se a nossa população fosse, em sua maioria, muçulmana, seria o Alcorão. Sabemos que esses dois livros sagrados, bem como a Torá, não são livros lidos como “literatura” e não têm função estética, mas ideológica

Publicado em 30 de Dezembro de 2024 às 00:00

Públicado em 

30 dez 2024 às 00:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Em conferência proferida na Universidade de Belgrano, Buenos Aires, em maio de 1978, assim falou Jorge L. Borges sobre o livro: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões da vista; o telefone é extensão da voz; temos o arado e a espada, extensões do braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.
Neste final de ano, quando mais um período solar se encerra e se inicia um novo ano no calendário, gostaria de falar a quem me lê, neste texto, sobre livro, leitura e humanização, três aspectos culturais que me são caros, desde sempre. Aprendi a gostar de ler, criança, ouvindo histórias contadas por meu avô italiano e por minha mãe, que dele herdou essa extraordinária arte de falar às crianças sobre o mundo e as relações humanas de uma forma que elas entendem muito bem, pelo imaginário e pela fantasia.
Hoje, quando vou às livrarias que restaram, após o massacre produzido pelo uso excessivo do celular e das redes sociais, vejo milhares de livros à venda, em sua maioria, livros de autoajuda (financeira, religiosa ou espiritual), livros infantis muito ideológicos, onde o ensinar valores e comportamentos predomina, mais que a fantasia, e livros para jovens leitores, com histórias açucaradas ou fantasiosas, sobre heróis/heroínas, animais fantásticos, enredos distópicos ou recriação de lendas e fábulas medievais.
Não temos mais os grandes autores nacionais como Machado de Assis, Graciliano Ramos ou Clarice Lispector, que ensinaram toda uma geração a ler, criticamente, a sociedade brasileira, suas diferenças classistas e contradições sociais. Escritores best-sellers do tempo presente como Itamar Vieira ou Carla Madeira não chegam a ser um consenso literário e, passada a onda, serão substituídos por outros pelo mercado.
A última pesquisa sobre “Retratos da Leitura No Brasil”, divulgada recentemente, mostra que, pela primeira vez, é o maior o número de brasileiros que não leem livros do que os leitores. Nos últimos quatro anos, houve uma redução de 6,7 milhões de leitores no país. 53% das pessoas não leram nem parte de um livro – impresso ou digital – de qualquer gênero, incluindo didáticos, Bíblia e religiosos.
A Bíblia é citada como o livro mais lido pela maior parte da população, o que revela a influência, cada vez maior, das religiões evangélicas. Se a nossa população fosse, em sua maioria, muçulmana, seria o Alcorão. Sabemos que esses dois livros sagrados, bem como a Torá, não são livros lidos como “literatura” e não têm função estética, mas ideológica. A meu ver, não deveriam ser considerados nesse tipo de pesquisa, pois sabemos que são lidos, integralmente, apenas por uma minoria.
A maioria cita a Bíblia, por ser o único livro que conhece ou tem em casa, mas, sabemos, dela só lê os Salmos, as epístolas de apóstolos e outras partes mais palatáveis. E, considerando-se o altíssimo padrão de violência que atinge a sociedade brasileira, não causa estranheza o fato de a leitura da Bíblia como livro único não ajudar a pacificar essa mesma sociedade? Talvez isso só revele que nem a Bíblia nem qualquer outro tipo de literatura sejam, por si sós, suficientes para doutrinar uma sociedade.
Bíblia
Bíblia Crédito: Pixabay
A literatura, no sentido estrito, possui, também, uma função educadora, como nos disse o professor Antônio Candido, pois, “como a vida, ensina na medida em que atua com toda a sua gama” e “é artificial querer que ela funcione como os manuais de virtude e boa conduta”. Para ele, “ela não corrompe nem edifica; mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.
Que, em 2025, sejamos mais humanos, leiamos mais bons livros e autores, e dediquemos mais tempo e atenção à educação e à leitura dos jovens e das crianças e menos às redes sociais.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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