Chegamos ao fim de um dos invernos mais quentes, secos e enfumaçados dentre os 69 que já vivi neste planeta. Me lembro dos invernos de minha infância, na Serra do Caparaó, quando o frio congelava até os ossos e mamãe tricotava blusas e meias de lã para nos aquecer. Saudades!
Agora, quando subo para as montanhas, só vejo fumaça e fogo por toda parte. Um verdadeiro inferno! Pelo menos, era a concepção que tínhamos, desde crianças, por influência católica, de que o inferno seria um lugar muito quente, onde se queimavam os maus, após a morte, pagando por erros e pecados cometidos quando vivos.
Parece que a palavra “inferno” é anterior ao Cristiano, do latim “inferus”, e designava “lugares baixos”, não necessariamente quentes. Daí para “infernus” foi uma questão de tempo. O conceito de “ida para lugares inferiores”, após a morte, está presente em diferentes religiões, mitologias e filosofias, representando a morada dos mortos indistintamente, segundo alguns, ou o lugar de condenação e de grande sofrimento das pessoas más, segundo outros.
Quem popularizou o conceito de “Inferno” como lugar de condenação eterna foi Dante (1265-1321), o célebre escritor florentino, que, em sua notável obra “A Divina Comédia”, de 1321, descreve a viagem do poeta ao Inferno, Purgatório e Paraíso, guiado, inicialmente, pelo poeta romano Virgílio. Esses três conceitos nem são bíblicos e, portanto, é um caso eloquente de uma obra literária influenciar toda uma religião, o cristianismo.
As escrituras descrevem o castigo dos maus no inferno como “fogo eterno”. Na Bíblia, o inferno foi criado para punir o diabo e seus anjos, e aqueles que morrem em pecado. Em Mateus 8,12, Jesus disse que o Inferno é um lugar de “trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”. É o lugar destinado àqueles que praticam o mal, onde a presença de ira de Deus está presente. Mas foi Dante quem descreveu o Inferno com algumas particularidades que o tornaram um lugar tão temido pelos que nele acreditam.
O Inferno de Dante, a primeira parte de “A Divina Comédia”, compõe-se de 34 cantos, com cerca de 140 versos cada. Para ele, o inferno é um local no interior da terra formado por nove círculos, concepção medieval, segundo a qual o universo é formado por diversos círculos concêntricos. Os nove círculos do inferno estão associados aos pecados cometidos, sendo o último o de maior gravidade.
No primeiro círculo, estão os pagãos virtuosos; no segundo, os luxuriosos; no terceiro, os gulosos; no quarto, os gananciosos; no quinto, os cometidos pela ira; no sexto, os heréticos; no sétimo, os violentos; no oitavo, os fraudulentos e no nono, os traidores.
Estou certo de que, se Dante reescrevesse o Inferno, hoje estariam condenados ao fogo eterno os que provocam incêndios, os desmatadores, os gananciosos das terras indígenas, os “haters” das redes sociais, os influenciadores digitais que estimulam fraudes, ou seja, pouca gente iria escapar do Inferno. Afinal, foi nisso que eles transformaram o nosso Planeta Terra, um Inferno, onde todos pagam pelos erros dos maus.