O que faz uma pessoa idosa como a dona Fátima de Tubarão (SC), que se tornou famosa na intentona golpista do último 8 de janeiro, deixar o recesso de seu lar, e ir para Brasília, quebrar vidraças e invadir os palácios públicos, pedindo intervenção militar? Difícil entender.
Como se diz nas redes sociais, “brasileiro é caso para análise”. Pois bem, Maria de Fátima Mendonça Jacinto Souza, 67 anos, que aparece em vídeo invadindo o Palácio do Planalto, em Brasília, é ré contumaz, pois responde por falsificação de documento e estelionato e já foi condenada à prisão por tráfico de droga, em 2014, de acordo com o Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
Assim como ela, muita “gente de bem” se envolveu na tentativa golpista, inconformada com o resultado das eleições presidenciais do último ano, acampou à frente dos quartéis, insuflada pelo espírito antidemocrático e deu no que deu. Foram às últimas consequência, e dos milhares que invadiram a capital federal, mil e poucos foram presos e responderão a processo. O que espanta é que a maioria desses golpistas possui mais de 50 anos. Uma minoria é de jovens, conforme dados divulgados na imprensa.
Na história do Brasil e do mundo, não é comum movimentos como esse partirem de idosos. Mesmo o golpe militar que derrubou a monarquia e implantou a República Brasileira foi liderado por jovens intelectuais como Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva ou Rui Barbosa. A escolha do idoso Marechal Deodoro da Fonseca para presidente, monarquista convicto, foi por ser o mais antigo militar. Deu ruim, como se diz hoje.
O Marechal estava velho e doente, viveu só um ano mais e seu sucessor foi um desastre. O país viveu uma guerra civil entre florianistas e descontentes e logo depois sofreu outra guerra civil, que provocou o genocídio de Canudos, com todo o exército nacional lutando contra os miseráveis seguidores do Padre Conselheiro. Euclides da Cunha, engenheiro militar e jornalista, conta-nos todo esse horror em “Os Sertões”, obra que todo brasileiro deveria conhecer.
A Revolução Francesa, a Independência Norte-americana, a Revolução Comunista, entre tantas outras revoltas sociopolíticas, foram concebidas e lideradas por jovens, a maioria homens. As mulheres só começaram a atuar em movimentos sociais organizados, a partir do século XX, com a Revolta Sufragista, a luta pelo direito ao voto, e as revoltas feministas, iniciadas na década de 1960.
Eram, em sua maioria, jovens idealistas que lutaram e morreram por suas causas. Em 1968, a Revolta de Maio, em Paris, se espalhou pelo mundo, com jovens universitários lutando pelas causas libertárias: pacifismo, amor, discriminação racial e sexual, ecologia, entre outras causas que repercutem até hoje entre os jovens, como a ativista socioambiental sueca Greta Thunberg.
No Brasil, o golpe civil-militar de 1964 teve o apoio de famílias conservadoras, que temiam a implantação do comunismo no Brasil, unidas pelo slogan fascista de “Deus, Pátria, Família”, o mesmo retomado pela ultradireita golpista que tentou solapar o Estado Democrático de Direito, que vivemos nos dias atuais.
O que surpreende na atual tentativa golpista bolsonarista é a presença maciça de idosos, homens e mulheres, saudosos da ditadura militar, intitulando-se “patriotas”, vestidos de verde e amarelo, atentando contra os pilares da democracia, os Três Poderes e seus símbolos máximos, raivosos contra os juízes da Suprema Corte, impedindo a imprensa de cumprir seu papel de informar e destruindo bens públicos, históricos e artísticos. Por trás, empresários financiadores desses golpistas são também criminosos que precisam ser identificados e punidos.
Ainda bem que nem todos os idosos são dona Fátima. Amanhã, completa noventa anos a nossa querida professora e escritora Ester Abreu Vieira de Oliveira, presidente da Academia Espírito-santense de Letras, exemplo de mulher ativa, intelectual, recém-eleita para a Academia de Letras do Brasil, cadeira 23, cujo patrono é José Lins do Rego. À Ester, nossos parabéns! Você nos honra.